Conversando com Fátima É sexta feira. Chego na casa de meus pais e Fátima é sempre a primeira pessoa que eu encontro. Faço tudo o que eu tenho para fazer e volto para a cozinha, para conversar com ela, para me informar das novidades. - Fátima. Que confusão era aquela lá na portaria? Você viu? - Era aquele porteiro coroa, que é gay. Parece que ele passou uma noite com um garotão, não pagou e agora o neginho tá aí. Veio cobrar. Falou que se não receber, vai dar um cacete nele. - Mas o porteiro é gay? Eu nunca tinha percebido nada... - Cristina, você é bobinha. Aquele lá nasceu gay e vai morrer gay. Tá na cara. Todo mundo sabe. - É. Eu estou mesmo desatualizada com os acontecimentos desse prédio. Mas, vamos ao que interessa. O que temos para o almoço? - Tem arroz, feijão com costelinha, salada de rúcula com tomate e bife de fígado acebolado. Tudo fresquinho. - Maravilha, Fátima! Tem tudo que eu gosto. Você sabia que eu vinha almoçar? - Eu adivinhei e preparei um cardápio especial para você. Fica só comendo porcaria na rua. Vai tomar seu whisky, pra relaxar? - Claro! Vou tirar os sapatos, colocar as minhas havaianas e já volto. - Enquanto isso eu arrumo o copo com gelo. Dou uma chegada no quarto, tiro os sapatos, coloco as minhas havaianas, pretas de preferência, pego a garrafa de whisky e volto para a cozinha. - Pronto, Fátima. Agora eu vou relaxar. Dá para fritar uns torresminhos? - É para já. Vai tomando seu whisky devagarinho, enquanto eu frito. - Fátima, você não me contou como foi o seu aniversário. Comprou tudo o que você queria com aquele dinheiro que eu e meus pais te demos? - Claro! Comprei duas sandálias, três calcinhas e ainda sobrou. - O que você vai comprar com o que sobrou? - Acho que eu vou levar meu marido, amanhã, que é sábado, para comer churrasquinho, à noite, no botequim do Seu Edgar, lá perto de casa. - É bom? - Ah, é! Tem pagode, bastante comida e custa só quinze reais por pessoa. - Então vai se distrair. Não precisa limpar meu apartamento amanhã, não. Limpa outro dia. - Não está muito sujo? Porque você é do capeta, Cristina. Não limpa nada. - Mas Fátima, lá não suja. Você sabe que eu só uso o fogão para ferver água para fazer Nescafé e olhe lá... - Eu sei. Lá na sua casa, barata não se cria. Não tem o que comer! - E você acha que eu vou me meter a cozinhar e dispensar a sua comida, além de sujar tudo? Eu não sou louca. A essa altura eu já estou saboreando os torresmos quentinhos, enquanto tomo o meu whisky e espero ela esquentar o meu almoço. - Fátima, e meus pais? Estão comportados? Ou andam brigando muito? - Não. Desde ontem eles estão uns santos. Parecem uns carneiros. Tem dia que os dois estão um terror, mas hoje estão bonzinhos. - Já almoçaram? - Há muito tempo. Estão dormindo feito dois anjinhos. Daqui a pouco acordam e vão querer comer alguma fruta ou tomar um suco. Comem o dia inteiro, Cristina. Comem pra caramba! Parecem traça. - Bom, hoje é sexta feira. Não vou trabalhar mais. Não estou com pressa de almoçar e pode botar meu prato aqui na cozinha, pra gente continuar conversando. Tem mais alguma novidade? - Ah! Sabe aquele outro porteiro, aquele novinho, bonitinho, que fica durante o dia? - Sei. O que é que tem? - Casou com uma mulher muito mais velha do que ele, que já tinha um filho. Tão feinha, coitada. Bem prejudicada. - Mas ele deve estar apaixonado, Fátima. - É. Amor é cego mesmo... E assim, numa sexta feira à tarde, eu acabo me informando de todas as notícias da semana, tomando um bom whisky, comendo muito bem e me divertindo com Fátima. A conversa continua, vai longe, sem hora para terminar, com ela fazendo seus comentários irônicos e eu rindo muito. Rir faz bem à alma... Tenho certeza de que vocês ficaram com inveja. Inveja branca. Eu entendo... Rio, 10.06.2009 Maria Cristina Villares villaresmcl.blog.uol.com.br
Escrito por Maria Cristina Villares às 14h53
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