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Crônicas de Maria Cristina Villares


Conversando com Fátima

 

É sexta feira. Chego na casa de meus pais e Fátima é sempre a primeira pessoa que eu encontro. Faço tudo o que eu tenho para fazer e volto para a cozinha, para conversar com ela, para me informar das novidades.

- Fátima. Que confusão era aquela lá na portaria? Você viu?

- Era aquele porteiro coroa, que é gay. Parece que ele passou uma noite com um garotão, não pagou e agora o neginho tá aí. Veio cobrar. Falou que se não receber, vai dar um cacete nele.

- Mas o porteiro é gay? Eu nunca tinha percebido nada...

- Cristina, você é bobinha. Aquele lá nasceu gay e vai morrer gay. Tá na cara. Todo mundo sabe.

- É. Eu estou mesmo desatualizada com os acontecimentos desse prédio. Mas, vamos ao que interessa. O que temos para o almoço?

- Tem arroz, feijão com costelinha, salada de rúcula com tomate e bife de fígado acebolado. Tudo fresquinho.

- Maravilha, Fátima! Tem tudo que eu gosto. Você sabia que eu vinha almoçar?

- Eu adivinhei e preparei um cardápio especial para você. Fica só comendo porcaria na rua. Vai tomar seu whisky, pra relaxar?

- Claro! Vou tirar os sapatos, colocar as minhas havaianas e já volto.

- Enquanto isso eu arrumo o copo com gelo.

Dou uma chegada no quarto, tiro os sapatos, coloco as minhas havaianas, pretas de preferência, pego a garrafa de whisky e volto para a cozinha.

- Pronto, Fátima. Agora eu vou relaxar. Dá para fritar uns torresminhos?

- É para já. Vai tomando seu whisky devagarinho, enquanto eu frito.

- Fátima, você não me contou como foi o seu aniversário. Comprou tudo o que você queria com aquele dinheiro que eu e meus pais te demos?

- Claro! Comprei duas sandálias, três calcinhas e ainda sobrou.

- O que você vai comprar com o que sobrou?

- Acho que eu vou levar meu marido, amanhã, que é sábado, para comer churrasquinho, à noite, no botequim do Seu Edgar, lá perto de casa.

- É bom?

- Ah, é! Tem pagode, bastante comida e custa só quinze reais por pessoa.

- Então vai se distrair. Não precisa limpar meu apartamento amanhã, não. Limpa outro dia.

- Não está muito sujo? Porque você é do capeta, Cristina. Não limpa nada.

- Mas Fátima, lá não suja. Você sabe que eu só uso o fogão para ferver água para fazer Nescafé e olhe lá...

- Eu sei. Lá na sua casa, barata não se cria. Não tem o que comer!

- E você acha que eu vou me meter a cozinhar e dispensar a sua comida, além de sujar tudo? Eu não sou louca.

A essa altura eu já estou saboreando os torresmos quentinhos, enquanto tomo o meu whisky e espero ela esquentar o meu almoço.

- Fátima, e meus pais? Estão comportados? Ou andam brigando muito?

- Não. Desde ontem eles estão uns santos. Parecem uns carneiros. Tem dia que os dois estão um terror, mas hoje estão bonzinhos.

- Já almoçaram?

- Há muito tempo. Estão dormindo feito dois anjinhos. Daqui a pouco acordam e vão querer comer alguma fruta ou tomar um suco. Comem o dia inteiro, Cristina. Comem pra caramba! Parecem traça.

- Bom, hoje é sexta feira. Não vou trabalhar mais. Não estou com pressa de almoçar e pode botar meu prato aqui na cozinha, pra gente continuar conversando. Tem mais alguma novidade?

- Ah! Sabe aquele outro porteiro, aquele novinho, bonitinho, que fica durante o dia?

- Sei. O que é que tem?

- Casou com uma mulher muito mais velha do que ele, que já tinha um filho. Tão feinha, coitada. Bem prejudicada.

- Mas ele deve estar apaixonado, Fátima.

- É. Amor é cego mesmo...

E assim, numa sexta feira à tarde, eu acabo me informando de todas as notícias da semana, tomando um bom whisky, comendo muito bem e me divertindo com Fátima. A conversa continua, vai longe, sem hora para terminar, com ela fazendo seus comentários irônicos e eu rindo muito. Rir faz bem à alma... Tenho certeza de que vocês ficaram com inveja. Inveja branca. Eu entendo...

 

 

Rio, 10.06.2009

Maria Cristina Villares

villaresmcl.blog.uol.com.br



Escrito por Maria Cristina Villares às 14h53
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