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Uma Tarde na Urca Eram quatro horas da tarde de uma quinta feira, mês de maio, Centro do Rio. Quatro horas de uma linda tarde de outono. Não havia mais providências a serem tomadas na Corretora. Hora para tomar um café. Levantei-me e fui saboreá-lo devagarzinho, na janela. Gosto daquela vista: o Largo da Carioca, a Avenida Rio Branco, a Rua da Ajuda, o Corcovado ao fundo, uma parte dos Arcos da Lapa. Procurei pela escultura do anjinho barroco, tocador de harpa. Lá estava ele, rodeado por um laguinho, no centro do Largo. E os pombos? Os pombos que ali estavam um dia, passeando pela cabeça e pelo pescoço do anjo? Sumiram. Dei-me conta de que não havia mais pombos, nem cinzas, nem marrons. Teria sido outro Choque de Ordem da Prefeitura? Meu olhar vagava pelas ruas, pelas pessoas, quando senti uma presença ao meu lado, na janela. Olhei para a esquerda e era Sócrates, que me dizia - uma vida não examinada, não vale a pena ser vivida - e partiu. Pensei bem no sentido daquelas palavras, acabei de tomar o meu café sem pressa e saí. Saí para examinar a minha vida. Resolvi pegar o carro e dar um passeio até a Urca. Ali seria o lugar ideal para examinar a vida. Não o que já passou, pois já aconteceu e está encerrado. Interessava-me examinar o meu "agora" e concluir como vou me posicionar no meu "amanhã" com esse "agora examinado". Entenderam? Ou seja, o que passou não se muda, não adianta ficar remoendo o passado. Então vamos tratar de arrumar a casa hoje, para vivermos melhor amanhã. E foi isso o que Sócrates me havia sugerido. Cheguei à Urca, estacionei o carro perto do Forte de São João e sentei-me no muro, onde ficam os pescadores. Estava entardecendo, um entardecer magnífico. O sol já havia se escondido atrás dos morros, o céu estava azul com um sombreado rosa, resultando num lindo violeta. Por entre os morros passavam raios de luz que prateavam as águas da Baía da Guanabara. Respirei profundamente e me senti feliz por estar ali, totalmente integrada a aquele momento. Acho que era essa a sensação que Sócrates sugeriu que eu sentisse, contemplando aquela obra de arte da Divina Natureza e me colocando dentro dela, interagindo com ela. Assim se examina a vida. Anoiteceu e surgiram mais pescadores. As luzes se acenderam. Aviões chegavam e partiam do Santos Dumont. Momentos simples, mas de pura magia, que estão ao alcance das nossas mãos. Pena que a maioria das pessoas viva correndo tanto, que não têm tempo para aproveitá-los. Também já fui assim. Hoje, já avancei um pouco e estou conseguindo, na maioria das vezes, fazer primeiro o importante para depois então fazer o urgente. Sei que nem sempre é possível, mas tento. Bem, estava eu sentada no muro, naquele muro que tem muita história para contar, história de séculos passados, totalmente presente naquele momento, quando um pescador armou seu anzol, para jogá-lo nas águas da Baía e a isca escapou, saiu voando e veio parar aonde? Nas minhas costas, meus amigos. É isso mesmo, um peixe cru, obviamente morto, pequenino, foi parar estatelado nas minhas costas e caiu no chão, o dito cujo. Olhei para o pescador e não consegui conter o riso. Ele relaxou e olhou para mim com um jeito maroto, esperando que eu lhe dissesse alguma coisa. - Estava fresco, esse peixe? - Estava sim senhora. Acabei de pescar. - Tem certeza? - Claro! Estava fresquinho. A senhora pode olhar aí no chão, como ele está brilhoso. E desculpe, foi sem querer. - Eu sei. Não tem problema. Só vou ter que mandar lavar a blusa. Continuei sentada no muro, agora examinando a minha reação e fiquei feliz comigo mesma. Certamente, há algum tempo atrás, eu teria ficado no mínimo aborrecida e teria ido embora, deixando que o peixe e o pescador estragassem a minha tarde. Mas agora não. Permaneci ali, examinado a minha vida, aproveitando aquele momento e acabei por me lembrar de um poeminha de Mario Quintana. "Todos esses que aí estão Atravessando o meu caminho, Eles passarão Eu passarinho!” Apenas acrescentei, pedindo licença a Quintana – E eu peixinho... Rio, 31.05.2009 Maria Cristina Villares villaresmcl.blog.uol.com.br
Escrito por Maria Cristina Villares às 16h25
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