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Crônicas de Maria Cristina Villares


Música - Vida Interior

 

Havia ou ainda há, não sei, um programa sobre música clássica, num dos canais de televisão, talvez a Educativa, sábados à tarde, que era apresentado por Artur da Távola. Nunca fui ligada em música clássica, mas às vezes assistia, dependendo da programação. O que eu não me esqueço é da frase com que o apresentador sempre finalizava o programa: "Música é vida interior e quem tem vida interior, nunca padecerá de solidão".

Sábia frase, a do Artur. Tenho me interessado mais por música ultimamente, além de outras coisas que me têm feito bem à alma. Mas a música que mais tem me atraído é o samba. O samba antigo, típico do Rio de Janeiro, composto por Cartola, Nelson Cavaquinho, Erivelto Martins, Pixinguinha, Noel e tantos outros poetas fantásticos. Um, em especial, tem me chamado a atenção e por sinal está completando o seu centenário. É Ataulfo Alves, mineiro de Miraí.

Já assisti a alguns programas sobre ele, com Beth Carvalho, sua filha Luana, uma gracinha, Ataulfo Alves Filho, Sérgio Cabral e o excelente e simpaticíssimo apresentador Chico Pinheiro. Quando a gente começa a ouvir Beth e Luana cantarem as músicas de Ataulfo, dá vontade de cantar junto e a gente sai mesmo cantando e batucando com elas. Dá vontade de ir lá para a Lapa, ouvir um show de samba, de chorinho, dançar e cantar no ritmo gostoso dessas músicas. Como é possível não gostar? "Quem não gosta de samba, bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé", dizia Dorival Caymmi.                      

São músicas contagiantes, que invadem nossa alma, nos emocionam e ao mesmo tempo nos alegram, nos dão vida interior. E há uma safra nova de cantores fantásticos que estão resgatando todas essas preciosidades, como Teresa Cristina, o grupo Casuarina, entre muitos outros.

Depois de ouvi-las, sempre gosto de estudar a letra com atenção e interpretar o que o poeta queria dizer. Gosto de me colocar em seu lugar e sempre encontro poemas lindos, estórias encantadoras, melancólicas, verdadeiras dores de cotovelo, que nunca morrerão. São para sempre.

Lembro-me do Ataulfo nos programas de televisão, de antigamente. Sempre elegante, no vestir e na postura. Um gentleman, com seu lenço branco nas mãos, conduzindo as suas Pastoras.

 

Leva meu samba

(Ataulfo Alves)

 

Leva meu samba
Meu mensageiro
Este recado
Para o meu amor primeiro
Vai dizer que ela é
A razão dos meus ais
Não, não posso mais

Eu que pensava
Que podia lhe esquecer
Mas qual o quê
Aumentou o meu sofrer
Falou mais alto
No meu peito uma saudade
Mas para o caso não há força de vontade
Aquele samba
Foi para ver se comovia
O seu coração
Onde eu dizia:
Vim buscar o meu perdão
Mas leva meu samba!

Não dá vontade de sair cantando e batucando? Sinto muito Xexéo. Nunca fui muito ligada nos Beatles e nunca saberia dizer se Hey Jude era de Paul ou de John. Quero mais é ir para a Lapa e lavar a minha alma com o samba. "Laranja madura, na beira da estrada, tá bichada Zé ou tem marimbondo no pé".

Gente, não sou tirana. Deixo o tipo de música à escolha do leitor, mas eu fico com o samba. Mas seja ela qual fôr, nos dará vida interior, alegrará a nossa alma e aquecerá o nosso coração. Música é emoção e o mundo está carente de emoção.

 

Rio, 18.05.2009

Maria Cristina Villares

villaresmcl.blog.uol.com.br



Escrito por Maria Cristina Villares às 11h01
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