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A Lua Vários cronistas têm escrito sobre o outono no Rio e citaram até Drummond: “O outono é a estação da alma”. Concordo com todos eles, em gênero, número e grau. O outono no Rio tem estado realmente deslumbrante, principalmente, após aquele fevereiro escaldante. Dias de sol, temperatura amena, céu azul. Mas como não quero ser repetitiva, vamos então falar sobre a Natureza e, em especial, sobre a Lua, mulher, irmã e companheira. O Sol. De repente ele se cansa e chama as nuvens para ajudá-lo, ou melhor, para trabalharem enquanto ele se refaz. Afinal ele é o astro rei e elas têm mais é que obedecê-lo. “Obedece quem tem juízo, manda quem pode”, ou ao contrário, mas dá no mesmo. Chegam as nuvens silenciosamente. Primeiro as pequeninas, pulando aqui e ali e em pouco tempo estão todas unidas num esparso nevoeiro, acinzentando o dia. Cai uma chuva fininha, persistente talvez, que lava o ar, a terra, as plantas. Sobe do chão aquele cheiro de terra molhada. O Sol tinha combinado com o Mar. Iriam, os dois, fazer essa chuvinha cair por um tempo. No dia seguinte, já refeito de seu cansaço, reaparece o Sol e vai aquecendo devagarinho o coração da gente, manda o nevoeiro e a chuva embora e escolhe algumas nuvenzinhas para fazer-lhe a corte. Enquanto isso, aqui na terra, o verde das árvores e dos gramados está exultante, cheio de si, exibindo seus vários matizes por onde alcança a nossa vista. As outras cores também surgem das flores, pedindo licença ao verde, para aparecerem. Como ele é soberano e sábio, cede-lhes gentilmente espaço. Aí surge o vermelho todo sensual, o amarelo, de nariz em pé, o rosa alegre e juvenil. A brisa corre sorrateira e apressada pelas ruas e o Mar continua sério, poderoso, sempre coexistindo com o Sol. Marte e Netuno. Cada um tem seu reino, não há tentativas de tomada de poder. Os dois conhecem perfeitamente as suas forças e cada um reina absoluto em seus domínios. A noite vem. É hora das estrelas e da Lua entrarem em ação enquanto o Sol vai aquecer outros lugares. As estrelas são como crianças travessas, brilhando aqui e ali, inocentes, puras, castas, como disse Hamlet. Só pensam em brincar. Não estão muito preocupadas conosco, não. Já a Lua é diferente. A Lua não é casta. Ela já pecou, já amou, já sofreu, passou por períodos de depressão, mas agora está de bem com a vida. Machado de Assis disse que ela teve um caso amoroso com um astro vagabundo por milênios, que não teve um final feliz. Talvez, mas ela acabou dando a volta por cima e está bem resolvida, feliz, fazendo charme para vários astros jovens e recebendo elogios de toda a galáxia. A Lua é vivida, experiente e por isso nos compreende, nos ouve, nada recrimina. Escuta tudo com paciência e é sempre boa conselheira. Low profile, aparece majestosa e enigmática. Nunca reclama do cenário que foi preparado para ela, porque ela não precisa de palco. Ela é o próprio cenário. Uma perfeita show woman. Surge de mansinho e fica esperando que a ela recorramos e que a ela contemos todas as nossas dores e amores, dissabores e desamores. É tão poderosa, tão femininamente poderosa, que domina o Mar, sem que ele se dê conta. Faz com que suas marés subam ou desçam, controladas por ela. E quando o Sol vem ressurgindo, não se intimida e não desaparece correndo. Fica ali mais um tempo, até que se sinta pronta para partir. Lembro-me de quando eu era criança, em noites de Lua cheia, meu avô mostrava-me São Jorge montado em seu cavalo, lutando contra o dragão. A Lua os carregava. Eu os via nitidamente, como Caetano também já os viu. “lua de são jorge cheia branca inteira oh minha bandeira solta na amplidão lua de são jorge lua brasileira lua do meu coração lua de são jorge lua maravilha mãe, irmã e filha de todo esplendor”
Que tal voltarmos a olhar para a Lua, e tentarmos ver São Jorge em seu cavalo? Será que essa aparição não nos fará bem, em tempos tão difíceis, de valores tão distorcidos? Assim como o outono é a estação da alma, a Lua é o astro do coração, da nossa emoção, do nosso “eu” mais profundo e verdadeiro. Rio, 03.04.2009 Maria Cristina Villares villaresmcl.blog.uol.com.br
Escrito por Maria Cristina Villares às 10h25
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Ai de ti, Copacabana – Segunda Versão Copacabana nesses últimos dias expôs novamente suas entranhas na mídia. Pelo menos dessa vez não ficou só, levou consigo Botafogo, Humaitá, Lagoa e Jardim Botânico. A causa? A de sempre. A guerra do tráfico. Traficantes da Rocinha querendo tomar os pontos da Ladeira dos Tabajaras, que tem suas saídas principais em Copacabana, mas se comunica através dos morros com os outros bairros envolvidos. Ai de ti, Copacabana - escrevia Rubem Braga em sua profética crônica, em 1958. “Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio forte se voltarão contra teu próprio corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão” Como esse não é um espaço para bombardear os meus amigos leitores com notícias ruins, as quais eles já estão cansados de tomar conhecimento através de jornais, revistas, televisão, rádio e internet, vamos viajar pelo túnel do tempo e descobrir um pouco da história desse bairro, internacionalmente conhecido – Copacabana – “mirante azul” no dialeto inca. A antiga praia de Sacopenapan não era mais do que um areal deserto, repleto de cajueiros, quando alguns pescadores ergueram uma capelinha no extremo sul da praia e ali puseram uma cópia da imagem de Nossa Senhora de Copacabana, trazida da Bolívia, do Lago Titicaca, por mercadores peruanos. A imagem acabou dando o seu nome à praia e ao bairro. Mais tarde, bem depois da construção do Forte do Posto Seis, a igrejinha foi demolida e a Matriz de Nossa Senhora de Copacabana foi transferida para a Praça Serzedelo Correia. Copacabana não tinha acessos terrestres e a Ladeira do Leme foi o primeiro, e lá no alto construíram um Forte, o do Leme. Ainda hoje podemos ver os seus arcos, que resistem bravamente ao tempo. Naquela época, os limites da Zona Sul da cidade estendiam-se até Botafogo. Copacabana era então, um paraíso inexplorado. O Dr. Figueiredo de Magalhães, que era proprietário das terras onde hoje fica a Praça Serzedelo Correia, teve a idéia de organizar uma linha de diligências, por volta de 1870. Era uma forma de seus clientes se locomoverem, já que eram hóspedes do hotel que ele próprio havia construído na praia. Logo depois, abriu-se o Túnel Velho, para ligar Copacabana a Botafogo, e começou a circular uma linha de bonde. Surgiam então empresas imobiliárias, dando início ao loteamento do bairro. Os empresários Teodoro Duvivier e Paula Freitas concluíam a abertura da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, implantando a Praça Serzedelo Correia e o final do Leme. Ao mesmo tempo, as empresas Barão de Ipanema e Constante Ramos loteavam a área que ia da Rua Figueiredo de Magalhães até o Morro do Cantagalo. E a Avenida Atlântica? Vocês devem estar curiosos. Calma, ela só foi inaugurada depois, no início do século XX, pelo Prefeito Pereira Passos. Nessa época, Copacabana já tinha umas quarenta ruas, duas avenidas, quatro praças, duas ladeiras e dois túneis. O novo bairro já pulsava. No centenário da Independência, o então empresário Octávio Guinle resolveu construir na orla, um luxuoso hotel, usando somente material importado. Eis que surge o Copacabana Palace Hotel, inaugurado no dia 1 de setembro de 1923. Ainda hoje ele lá está, majestoso, sofisticado, lindo, hospedando reis, políticos, artistas e celebridades. Um cartão postal da cidade. E desde então Copacabana vem crescendo e envelhecendo. Foi cenário do surgimento da Bossa Nova, no Beco das Garrafas e infelizmente, nos últimos tempos, tem sido cenário de guerra urbana. No Réveillon, chega a atrair mais de um milhão de pessoas, que acompanham a famosa queima de fogos e oram por dias melhores. Daí de cima, olha para nós, querido Braga e desfaz a tua profecia! Rio, 30.03.2009 Maria Cristina Villares villaresmcl.blog.uol.com.br
Escrito por Maria Cristina Villares às 19h51
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As Coisas Boas de São Paulo Gosto de ir a São Paulo, a começar pela viagem. Adoro chegar ao Aeroporto Santos Dumont e pegar um vôo para a capital paulista. Não existe aeroporto mais carismático do que o Santos Dumont, principalmente a sua parte antiga. As colunas revestidas de mármore romano, aqueles lindos painéis no saguão central, que felizmente não foram destruídos no incêndio de 1998, me trazem lembranças da infância, quando viajávamos para São Paulo de Electra II, na Ponte Aérea. Era um avião charmoso, seguro e confortável. Lembro-me também de ter viajado, antes ainda, nas Asas da Panair. Tudo isso ficou no passado. Mas ainda não há nada melhor do que decolar ou aterrissar, vendo o Pão de Açúcar e a Baía da Guanabara. Outro dia fui levar Rodrigo, um amigo paulista, para embarcar. Fomos mais cedo, estacionamos e enquanto esperávamos o horário do seu vôo, fomos tomar um vinho e conversar, matar as saudades no 14 Bis, aquele restaurante no segundo andar da parte antiga. O papo estava tão animado, que ele quase perdeu o vôo. Mas ainda deu tempo de embarcar. Mas vamos para São Paulo, amigo leitor? A chegada em Congonhas já não é tão prazerosa. Quando o avião começa os procedimentos para aterrissar, olho pela janela e vejo milhares de casas e edifícios, começo a pensar que é grande a probabilidade dele pousar sobre um grupo de edificações. Já vi esse filme antes. Parece até que eu poderia acenar para os moradores daqueles apartamentos. Mas Deus ajuda e até agora tenho tido sucesso, ou melhor, os pilotos com os quais eu tenho viajado, têm tido a perícia necessária. São Paulo é uma cidade com várias coisas muito boas. Pena que agora, com o trânsito cada vez mais caótico, nem sempre podemos aproveitá-las. Há um ano mais ou menos, eu costumava ir e ficar lá por dois dias. Gostava de ficar num hotel na Rua Hadock Lobo, perto da Paulista. No primeiro dia eu me dedicava aos negócios e aos amigos, que trabalham todos concentrados na região do Brooklin. No segundo dia, eu me dedicava a bater perna pela área da Oscar Freire, Alamedas, Jardins, almoçava muitíssimo bem, via lojas lindas e ótimas, ia a um teatro. Gostava de ficar caminhando por aquelas ruas e observando os prédios antigos, bem cuidados, com uma arquitetura imponente, elegante. A Avenida Paulista também tem o seu charme, com o Masp, o Parque Trianon, os prédios altos e modernos, como o da FIESP. É o centro financeiro do país. Grande parte do PIB brasileiro está ali, naqueles 2700 metros de avenida. Hoje, fico num hotel perto do aeroporto, no Brooklin. Dessa forma eu vou a pé ver meus amigos e resolver as pendências de negócios ao mesmo tempo. Se eu tentar ficar na Hadock Lobo, talvez leve umas quatro ou seis horas para chegar até lá. Isso se não houver uma enchente e meu taxi ficar boiando numa daquelas avenidas. São Paulo já não é mais a terra da garoa.
Escrito por Maria Cristina Villares às 15h16
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As Coisas Boas de São Paulo-continuação
Lá, os serviços em geral são excelentes, bem melhores que os do Rio. Há profissionais bem mais preparados do que aqui. A medicina, por exemplo, é insuperável. Há um cirurgião cardiovascular, Dr. Sergio Almeida de Oliveira, que é um iluminado. É um profissional internacionalmente conhecido, inigualável no Brasil e um dos melhores seres humanos que eu já conheci. Dr. Sérgio foi estagiário do Dr. Zerbini, fez o Juramento de Hipócrates e o cumpre à risca. Acho que a maioria dos médicos de hoje, talvez nem saiba quem foi Hipócrates. Claro que há exceções, mas não são tantas assim. Em 2004, minha mãe foi operada por ele, de um aneurisma na aorta ascendente, na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Operação de alto risco, mas até hoje ela está muito bem, sem qualquer seqüela. Lembro-me de que todas as noites o próprio Dr. Sérgio ia visitar-nos no hospital. Aliás, esse é um hábito que ele herdou do Dr. Zerbini, depois de terminadas as cirurgias e consultas do dia, sai visitando todos os seus operados em seus quartos, enfermarias, sejam o que forem. Não há palavras para descrever o tratamento e o carinho recebidos por ele, por sua equipe e pela equipe da Beneficência, bem diferente da sua prima carioca. Mas mesmo sem poder bater perna pela área da Oscar Freire, ainda gosto de ir a São Paulo, principalmente para rever essas pessoas com quem tenho relações comerciais e que são, antes de tudo, amigos muito queridos. Trabalham todos na Seguradora Zurich. Tenho certeza de que se um dia, nossas relações comerciais terminarem, a nossa amizade seguirá. Às vezes sinto saudades e telefono, cobro uma vinda deles ao Rio, mando uns emails desaforados, mas são pessoas que vivem enroladas em mil problemas de trabalho e nem sempre podem vir. Eu entendo. Quando canso de esperar, vou até lá, passo o dia resolvendo as pendências de trabalho e ao mesmo tempo aproveitando a companhia de Neto, Rodrigo e todos os outros e à noite, saímos para jantar. Volto no dia seguinte, feliz por ter estado na companhia de pessoas queridas. Eu tenho certeza de que vocês devem estar se perguntando. Afinal de contas, o que restou de bom em São Paulo, se não podemos nos deslocar pela cidade e ainda corremos o risco de morrermos afogados? Restou o mais importante, meus amigos. Restou gente. Gente como o Dr. Sérgio, como os meus amigos da Zurich e como outros amigos igualmente queridos, da época da Engenharia na UFRJ, no Fundão, como o Marçal, o Milton, que estão instalados naquela cidade. E por acaso existe coisa melhor do que gente de verdade? Rio, 30.03.2009 Maria Cristina Villares villaresmcl.blog.uol.com.br
Escrito por Maria Cristina Villares às 15h15
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