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Crônicas de Maria Cristina Villares


Um Susto ou Um Surto?

Era uma manhã de domingo em Londres. Outono. A família Brown, o pai, a mãe e o filho pequeno acordaram, tomaram seu café britânico, tudo rigorosamente no horário, pegaram o metrô, foram passear no Hyde Park e depois foram almoçar à beira do Tâmisa. Quando estavam no meio do seu almoço, tudo preparado em casa por Mrs. Brown, sanduíches de rosbife com pepinos em conserva, torta de maçã e uma garrafa térmica com chá quente, o filho levantou-se espantado e falou:

- Father. Is that a bear? Shall we be eaten?

- Oh my dearest. I sincerely do not know! – respondeu Mr. Brown.

- God save the Queen! – exclamou Mrs. Brown.

A essa altura já havia uma confusão britânica à beira do Rio Tâmisa. Outras pessoas já tinham visto a figura de um urso branco, em cima de um bloco de gelo, vindo em sua direção. Na realidade era apenas uma escultura de um urso polar, que havia sido feita para divulgar o lançamento de um novo canal de televisão na Inglaterra, dedicado a ecologia, história natural e meio ambiente. Os organizadores tentavam também chamar a atenção para o aquecimento global, que aumenta o derretimento das calotas polares e ameaça esse animal de extinção. Mas os britânicos, como não haviam sido prevenidos e andam estressados com a derrocada da libra esterlina, ficaram aterrorizados. Até que tudo ficasse devidamente esclarecido, foi um tumulto geral. A maior preocupação dos ingleses era com a Rainha e com o Príncipe William, seu neto mais velho. Charles e Camilla não estavam sendo muito lembrados, não. Tudo ficou realmente calmo, quando a equipe de organizadores veio ao local para explicar o evento e confirmou que Elizabeth II e seu neto William, estavam bem e a salvo no Castelo de Windsor, a algumas milhas de distância de Londres.

 

Mais tarde, numa cidade do Texas, a família Smith, o pai, a mãe e uma filha pequena, viam televisão no domingo à noite, em casa, comendo pipoca e sanduíches de manteiga de amendoim, com coca cola. Não é que aparece a escultura do urso para assustar os americanos também! Mas o susto nos Estados Unidos foi diferente. A menina gritava:

- Dad! There comes a bear!

- Under our beds! Right now! – ordenou Mr. Smith.

- Oh, my God! We will be attacked. – chorava Mrs. Smith.

 

Já debaixo de suas camas, comendo as pipocas e com seus celulares em punho, a família Smith conseguiu chamar a polícia e obteve a explicação de que era apenas uma escultura de um urso e que a escultura estava em Londres, muito longe do Texas. Mas não foi tão fácil assim convencê-los e muitas outras famílias americanas passaram pela mesma experiência aterrorizante. Ninguém acreditava que o urso não era de verdade. Outro problema sério era fazê-los entender que Londres ficava na Inglaterra, com o Atlântico Norte separando-os. Coisas de Geografia, não tão claras para todos os mortais. As próprias autoridades locais já estavam passando a duvidar e resolveram chamar o Pentágono, a CIA, a Casa Branca. Obama precisou ir à CNN e fazer um pronunciamento, explicando que era tudo mentirinha, bem longe dali, que ele, Michelle, as meninas e a sogra estavam bem, que todos podiam sair de seus esconderijos e terminar seu domingo numa boa, comendo as pipocas, os sanduíches de manteiga de amendoim e tomando a coca cola, em frente à televisão. Os bombeiros tiveram bastante trabalho naquela noite, porque algumas pessoas ficaram entaladas e não conseguiam sair dos lugares onde haviam se metido. Mas ao final tudo se resolveu e todos puderam assistir à final do Campeonato Americano de Baseball. Não sei informar quem venceu.

 

Semanas depois, um garotinho baiano viu toda essa confusão em Londres e no Texas, no Jornal da Bahia e perguntou calmamente ao pai:

- Painho. Por que essa confusão toda por causa de um urso de brinquedo?

- Meu rei, painho tá cansado. Qualquer dia painho tenta entender pra te explicar.

- Precisa não, painho. Vai dar muito trabalho e eu também tô cansado.

- Então vamos descansar juntos, que é melhor. Esse urso não vai chegar aqui não. Tá muito longe.

Rio, 23.03.2009

Maria Cristina Villares

villaresmcl.blog.uol.com.br



Escrito por Maria Cristina Villares às 22h40
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No Salão de Cabeleireiro

 

Minhas amigas, digam-me com sinceridade. Quais de nós não temos problemas com os nossos cabelos? É uma eterna preocupação. Corto, não corto, pinto, de que cor? Faço luzes, pinto de vermelho? Aliso, agora quero cachos, mas nem tantos. Somos instáveis, mas mudar os cabelos, ao nosso gosto, é tudo de bom, para as que têm os cabelos versáteis, que podem ser mudados ao gosto de sua dona, na hora em que bate aquela vontade. Sortudas essas! Eu não possuo a mesma sorte. Tenho os cabelos finos, ralos e lisos. Inventar qualquer coisa é impossível, a não ser mudar a cor. O corte, eu já desisti, me convenci definitivamente de que tenho que usar aquele corte tipo curto, meio repicado, que fica pelo menos com um pouco de volume e é fácil de cuidar. Variar, só se eu usasse uma peruca. Já até pensei na possibilidade, mas ainda não acabei de pensar. Mas para eu chegar a esse corte ideal, levou tempo, até que eu encontrasse um cabeleireiro que tivesse as mãos perfeitas para cortar o meu cabelo, porque qualquer vacilo aqui, é um buraco na certa, o maior estrago, não tem como disfarçar.

Quando encontrei Jean Marc, há uns quinze anos, fiquei e continuo fiel. Jean Marc é de Mônaco, da terra de Rainier e Grace, tem pedigree, não é um Jean Quelque Chose. Está no Rio há uns trinta anos, mas ainda conserva um leve sotaque francês. Nada exagerado.

- Como vai, Marrria Crrristina?

Talvez tenha menos erres, não sei. Sei que somente ele sabe cortar os meus cabelos, sem que eu corra qualquer tipo de risco. Tem uma equipe educada e simpática, compatível com o seu perfil e tem outra grande e rara qualidade: é pontual. Eu não tenho mais paciência e nem tempo para ficar horas em um salão, esperando para ser atendida.

Certa vez demorei-me mais do que o de costume no Jean Marc, porque me deu vontade de fazer luzes, para tentar mudar um pouco o visual, e enquanto eu esperava, com aqueles papéis prateados no cabelo, lia uma revista, quando tive a minha atenção desviada para uma conversa entre um maquiador e uma cliente que acabava de chegar. Eles estavam do outro lado do salão. Uma divisória com espelhos nos separava, de modo que eu não os via e nem eles a mim. Mas eu ouvia tudo e passei a me interessar pelo diálogo. Na realidade não era bem um diálogo, era mais um monólogo, porque o maquiador não dava chance para a cliente falar. Acho que ela se limitava a sorrir ou a acenar com a cabeça. Pelo menos era essa a impressão que me passava.

 

- Querida! Há quanto tempo! Nossa, você está um luxo! Emagreceu tanto! Magérrima e elegantérrima! Eu é que não consigo perder nem um quilinho! Sei que estou precisando, mas é impossível, minha amiga. Adoro chocolate! Mas você vai se maquiar hoje comigo? Que ótimo! Vamos arrasar! É uma festa? Que roupa você vai usar?

- É um casamento. Vou com um vestido bege – respondeu a cliente.

- Maravilha! Bege minha querida, é sempre bege. É chic! E você é chic. Aliás, nós somos chics!

- Uma maquiagem suave, por favor – conseguiu interferir a cliente. Pela voz percebi que era uma senhora.

- Claro! E você acha que eu vou fazer você parecer uma perua! Me poupe! Parece até que você não me conhece. Você vai ser a mulher mais admirada de todo o casamento. Talvez até mais do que a noiva. Meu Deus, que ela não nos ouça!

 

Enquanto a maquiagem começava, ele continuava a falar.

- Sabe quem esteve aqui outro dia? Aquela nossa amiga, sabe? Tão caidinha, coitadinha! Fiquei com tanta pena. O marido morreu e deixou a viúva sem nada. Está vivendo com a ajuda do filho e filho você sabe como é, a maioria não está nem aí. Quem te viu, quem te vê! Umas roupinhas bregas. A raiz do cabelo branca, as unhas todas por fazer. Um horror, minha filha! Sabe a que ponto ela chegou? Usava o batom nas bochechas e nas pálpebras, no lugar do blush e da sombra! Fiquei chocado! Acabei dando uma maquiagem de presente para ela.

 

Quando eu ouvi essa observação sobre o batom usado como blush e sombra, levei um susto. Será que aquele maquiador tagarela estava falando comigo ou para mim? Sim, porque eu tenho o hábito de fazer exatamente isso. É prático, quebra o maior galho e é rápido. Em qualquer lugar, com apenas um batonzinho básico, você retoca a maquiagem praticamente toda. Maquiador antipático! Não sabe de nada! Aliás minhas amigas, aprendi esse truque num programa de televisão, com a Fafá de Belém. E sou muito mais ela do que ele.

 

Rio, 23.03.2009

Maria Cristina Villares

villaresmcl.blog.uol.com.br



Escrito por Maria Cristina Villares às 22h37
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Quem Foi Evaristo da Veiga?

 

Se disserem que é uma rua no Centro do Rio, na Cinelândia, atrás do Passeio Público, não vale. E do Hino da Independência, em minha opinião, mais bonito do que o Nacional, alguém se lembra?

 

Já podeis da Pátria filhos;
Ver contente a mãe gentil;
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil
Já raiou a liberdade,
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil.
Brava gente brasileira!
Longe vá temor servil
Ou ficar a Pátria livre
Ou morrer pelo Brasil;
Ou ficar a Pátria livre,
Ou morrer pelo Brasil.


A música do Hino da Independência foi composta por Dom Pedro I e a letra por Evaristo da Veiga. Dom Pedro, na época, muito espertamente, atribuiu a autoria da letra a si próprio e o tímido Evaristo, somente onze anos depois, reivindicou para si a autoria. Essa herança genética é forte. Até hoje, muitos de nós, não perdemos o costume de querer puxar o tapete do vizinho.

Mas voltando ao Evaristo, ele foi poeta, um poeta cujos versos eram dedicados a encantar a Família Imperial Brasileira. Era um monarquista convicto, mas não tinha posição social, era de origem humilde, por isso teve sempre um papel obscuro nos acontecimentos da Independência.

Sua carreira de poeta foi curta e ele, que já trabalhava no balcão da livraria de seu pai, resolveu abrir a sua própria livraria, em sociedade com o irmão. Deu certo. Era um empreendimento lucrativo, já que o país estava sendo impregnado pelas influências européias, através de livros e jornais.

Evaristo, financeiramente bem, separou-se da sociedade com seu irmão e comprou uma livraria e uma tipografia, abrindo o seu próprio estabelecimento. No mesmo ano, lançou o seu jornal, A Aurora Fluminense, que ficou famoso e teve um papel importante no Primeiro Reinado.

Os principais temas do seu jornal eram a liberdade constitucional e a liberdade de imprensa. Dom Pedro I cada vez mais aproximava-se de Portugal e distanciava-se do Brasil, aumentando as diferenças entre os nativistas liberais e o imperador e A Aurora Fluminense era o reduto da oposição, o que fazia com que a popularidade de Evaristo crescesse.

Logo depois foi eleito deputado por Minas Gerais, tendo sido reeleito até a sua morte, sem nunca ter deixado de ser jornalista e livreiro. Era um político que lutava pelos interesses vitais do povo, como o incentivo à indústria e à educação e o saneamento básico.

Coisa rara no Poder Legislativo atual, Evaristo era assíduo, objetivo, ia direto ao assunto, modesto e honesto. Era um deputado livre, jornalista defensor da ordem pública e vivia do seu trabalho, sem nunca ter aspirado ou procurado o poder.

Quando Dom Pedro I morreu em Portugal, em 24 de setembro de 1834 e a notícia chegou ao Brasil, Evaristo declarou: “não foi um príncipe de ordinária medida, existia nele o germe de grandes qualidades, que defeitos lamentáveis e uma viciosa educação sufocaram em parte. Se existimos como nação livre, se nossa terra não foi retalhada em pequenas repúblicas, onde só dominasse a anarquia e o espírito militar, devemo-lo muito à resolução que tomou de ficar entre nós, de soltar o primeiro grito de nossa Independência.”

Em 30 de dezembro de 1835, saia o último número de seu jornal, A Aurora Fluminense. Evaristo então passou a viver como desejava, tranquilamente, com a mulher e as três filhas, mas continuando a comparecer à Câmara até 1936. Depois decidiu fechar a sua casa na antiga Rua dos Barbonos, atual Rua Evaristo da Veiga e foi morar em Campanha, interior de Minas, onde vivia um de seus irmãos. Em maio de 1837, veio ao Rio, e no dia 12 do mesmo mês morreu repentinamente, de uma “febre perniciosa”, diagnosticada pelos médicos, aos 37 anos de idade.

Resumindo, Evaristo da Veiga foi um jornalista livre e um político sério, sincero, lúcido e principalmente, sem apego aos altos cargos, tendo apenas um enorme desejo de servir e de ser útil. Como eu já disse anteriormente, uma raridade no atual Poder Legislativo.

 

Rio, 15.03.2009

Maria Cristina Villares

villaresmcl.blog.uol.com.br



Escrito por Maria Cristina Villares às 09h20
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