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Crônicas de Maria Cristina Villares


Conversando com Fátima

 

É sexta feira. Chego na casa de meus pais e Fátima é sempre a primeira pessoa que eu encontro. Faço tudo o que eu tenho para fazer e volto para a cozinha, para conversar com ela, para me informar das novidades.

- Fátima. Que confusão era aquela lá na portaria? Você viu?

- Era aquele porteiro coroa, que é gay. Parece que ele passou uma noite com um garotão, não pagou e agora o neginho tá aí. Veio cobrar. Falou que se não receber, vai dar um cacete nele.

- Mas o porteiro é gay? Eu nunca tinha percebido nada...

- Cristina, você é bobinha. Aquele lá nasceu gay e vai morrer gay. Tá na cara. Todo mundo sabe.

- É. Eu estou mesmo desatualizada com os acontecimentos desse prédio. Mas, vamos ao que interessa. O que temos para o almoço?

- Tem arroz, feijão com costelinha, salada de rúcula com tomate e bife de fígado acebolado. Tudo fresquinho.

- Maravilha, Fátima! Tem tudo que eu gosto. Você sabia que eu vinha almoçar?

- Eu adivinhei e preparei um cardápio especial para você. Fica só comendo porcaria na rua. Vai tomar seu whisky, pra relaxar?

- Claro! Vou tirar os sapatos, colocar as minhas havaianas e já volto.

- Enquanto isso eu arrumo o copo com gelo.

Dou uma chegada no quarto, tiro os sapatos, coloco as minhas havaianas, pretas de preferência, pego a garrafa de whisky e volto para a cozinha.

- Pronto, Fátima. Agora eu vou relaxar. Dá para fritar uns torresminhos?

- É para já. Vai tomando seu whisky devagarinho, enquanto eu frito.

- Fátima, você não me contou como foi o seu aniversário. Comprou tudo o que você queria com aquele dinheiro que eu e meus pais te demos?

- Claro! Comprei duas sandálias, três calcinhas e ainda sobrou.

- O que você vai comprar com o que sobrou?

- Acho que eu vou levar meu marido, amanhã, que é sábado, para comer churrasquinho, à noite, no botequim do Seu Edgar, lá perto de casa.

- É bom?

- Ah, é! Tem pagode, bastante comida e custa só quinze reais por pessoa.

- Então vai se distrair. Não precisa limpar meu apartamento amanhã, não. Limpa outro dia.

- Não está muito sujo? Porque você é do capeta, Cristina. Não limpa nada.

- Mas Fátima, lá não suja. Você sabe que eu só uso o fogão para ferver água para fazer Nescafé e olhe lá...

- Eu sei. Lá na sua casa, barata não se cria. Não tem o que comer!

- E você acha que eu vou me meter a cozinhar e dispensar a sua comida, além de sujar tudo? Eu não sou louca.

A essa altura eu já estou saboreando os torresmos quentinhos, enquanto tomo o meu whisky e espero ela esquentar o meu almoço.

- Fátima, e meus pais? Estão comportados? Ou andam brigando muito?

- Não. Desde ontem eles estão uns santos. Parecem uns carneiros. Tem dia que os dois estão um terror, mas hoje estão bonzinhos.

- Já almoçaram?

- Há muito tempo. Estão dormindo feito dois anjinhos. Daqui a pouco acordam e vão querer comer alguma fruta ou tomar um suco. Comem o dia inteiro, Cristina. Comem pra caramba! Parecem traça.

- Bom, hoje é sexta feira. Não vou trabalhar mais. Não estou com pressa de almoçar e pode botar meu prato aqui na cozinha, pra gente continuar conversando. Tem mais alguma novidade?

- Ah! Sabe aquele outro porteiro, aquele novinho, bonitinho, que fica durante o dia?

- Sei. O que é que tem?

- Casou com uma mulher muito mais velha do que ele, que já tinha um filho. Tão feinha, coitada. Bem prejudicada.

- Mas ele deve estar apaixonado, Fátima.

- É. Amor é cego mesmo...

E assim, numa sexta feira à tarde, eu acabo me informando de todas as notícias da semana, tomando um bom whisky, comendo muito bem e me divertindo com Fátima. A conversa continua, vai longe, sem hora para terminar, com ela fazendo seus comentários irônicos e eu rindo muito. Rir faz bem à alma... Tenho certeza de que vocês ficaram com inveja. Inveja branca. Eu entendo...

 

 

Rio, 10.06.2009

Maria Cristina Villares

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Escrito por Maria Cristina Villares às 14h53
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Uma Tarde na Urca

 

Eram quatro horas da tarde de uma quinta feira, mês de maio, Centro do Rio. Quatro horas de uma linda tarde de outono. Não havia mais providências a serem tomadas na Corretora. Hora para tomar um café. Levantei-me e fui saboreá-lo devagarzinho, na janela. Gosto daquela vista: o Largo da Carioca, a Avenida Rio Branco, a Rua da Ajuda, o Corcovado ao fundo, uma parte dos Arcos da Lapa. Procurei pela escultura do anjinho barroco, tocador de harpa. Lá estava ele, rodeado por um laguinho, no centro do Largo. E os pombos? Os pombos que ali estavam um dia, passeando pela cabeça e pelo pescoço do anjo? Sumiram. Dei-me conta de que não havia mais pombos, nem cinzas, nem marrons. Teria sido outro Choque de Ordem da Prefeitura?

Meu olhar vagava pelas ruas, pelas pessoas, quando senti uma presença ao meu lado, na janela. Olhei para a esquerda e era Sócrates, que me dizia - uma vida não examinada, não vale a pena ser vivida - e partiu.

Pensei bem no sentido daquelas palavras, acabei de tomar o meu café sem pressa e saí. Saí para examinar a minha vida. Resolvi pegar o carro e dar um passeio até a Urca. Ali seria o lugar ideal para examinar a vida. Não o que já passou, pois já aconteceu e está encerrado. Interessava-me examinar o meu "agora" e concluir como vou me posicionar no meu "amanhã" com esse "agora examinado". Entenderam? Ou seja, o que passou não se muda, não adianta ficar remoendo o passado. Então vamos tratar de arrumar a casa hoje, para vivermos melhor amanhã. E foi isso o que Sócrates me havia sugerido.

Cheguei à Urca, estacionei o carro perto do Forte de São João e sentei-me no muro, onde ficam os pescadores. Estava entardecendo, um entardecer magnífico. O sol já havia se escondido atrás dos morros, o céu estava azul com um sombreado rosa, resultando num lindo violeta. Por entre os morros passavam raios de luz que prateavam as águas da Baía da Guanabara.

Respirei profundamente e me senti feliz por estar ali, totalmente integrada a aquele momento. Acho que era essa a sensação que Sócrates sugeriu que eu sentisse, contemplando aquela obra de arte da Divina Natureza e me colocando dentro dela, interagindo com ela. Assim se examina a vida.

Anoiteceu e surgiram mais pescadores. As luzes se acenderam. Aviões chegavam e partiam do Santos Dumont. Momentos simples, mas de pura magia, que estão ao alcance das nossas mãos. Pena que a maioria das pessoas viva correndo tanto, que não têm tempo para aproveitá-los. Também já fui assim. Hoje, já avancei um pouco e estou conseguindo, na maioria das vezes, fazer primeiro o importante para depois então fazer o urgente. Sei que nem sempre é possível, mas tento.

Bem, estava eu sentada no muro, naquele muro que tem muita história para contar, história de séculos passados, totalmente presente naquele momento, quando um pescador armou seu anzol, para jogá-lo nas águas da Baía e a isca escapou, saiu voando e veio parar aonde? Nas minhas costas, meus amigos. É isso mesmo, um peixe cru, obviamente morto, pequenino, foi parar estatelado nas minhas costas e caiu no chão, o dito cujo. Olhei para o pescador e não consegui conter o riso. Ele relaxou e olhou para mim com um jeito maroto, esperando que eu lhe dissesse alguma coisa.

- Estava fresco, esse peixe?

- Estava sim senhora. Acabei de pescar.

- Tem certeza?

- Claro! Estava fresquinho. A senhora pode olhar aí no chão, como ele está brilhoso. E desculpe, foi sem querer.

- Eu sei. Não tem problema. Só vou ter que mandar lavar a blusa.

Continuei sentada no muro, agora examinando a minha reação e fiquei feliz comigo mesma. Certamente, há algum tempo atrás, eu teria ficado no mínimo aborrecida e teria ido embora, deixando que o peixe e o pescador estragassem a minha tarde. Mas agora não. Permaneci ali, examinado a minha vida, aproveitando aquele momento e acabei por me lembrar de um poeminha de Mario Quintana.

 

"Todos esses que aí estão

Atravessando o meu caminho,

Eles passarão

Eu passarinho!”

 

Apenas acrescentei, pedindo licença a Quintana – E eu peixinho...

 

Rio, 31.05.2009

Maria Cristina Villares

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Escrito por Maria Cristina Villares às 16h25
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Uma Mulher em Minha Vida

 

Ela não tinha mais do que um metro e meio de altura. Era baixinha, porque quando ainda menina, sofreu uma queda de um cavalo, o que lhe causou uma grande escoliose e naqueles tempos, na primeira década do século XX, não havia tratamentos médicos adequados nas cidades do interior. Mas esse problema, por assim dizer, nunca foi realmente um problema para ela. As dores, frequentes e o visível desvio na coluna nunca foram motivos para queixas.

Ela era a mulher mais velha de uma série de irmãos e irmãs e a preferida de seu pai, por quem tinha um grande amor. Na época certa, apareceu-lhe o seu segundo grande amor, com quem se casou e viveu em harmonia e companheirismo por mais de sessenta anos. Seu nome era Antônio.

Qual o nome dela? Maria. Não poderia haver nome mais adequado para ela. Era tratada por todos como Mariinha, por ser pequenininha. Mas ela era pequenina somente na altura, pois era uma grande mulher, generosa, personalidade forte, mandona mesmo, emotiva, alegre, líder. No casamento, ela era a cabeça e o coração do casal. Conduzia Antônio sempre pelos melhores caminhos, auxiliava-o o tomar as melhores decisões, o apoiava sempre que necessário. Foram felizes. Tiveram duas filhas com uma diferença de sete anos entre elas. A mais velha chamava-se Wilma e a mais nova, Cleyde. Nomes típicos de atrizes de cinema da época. Wilma é minha mãe e Cleyde é minha tia. Concluímos então que Maria e Antônio eram meus avós maternos.

Tive a felicidade de ser criada por esse casal, por motivos que não cabe aqui mencionar, ou essa crônica seria um livro de memórias. Passei minha infância, até os sete anos de idade, com eles, numa cidade do interior de São Paulo, onde pude ter contato com a natureza, com os animais, com as plantas. Tive a oportunidade de brincar nas águas turbulentas das enxurradas, de ver arco íris, estrelas, de andar a cavalo em fazendas, de tomar leite quente no curral, tirado na hora, de pular amarelinha e corda na rua, de morar em uma casa com quintal, horta, frutas e bichos. Pude passear na praça com meu avô, tomando sorvete, nós dois, sentados num banco, à sombra das árvores. Fui uma criança feliz. Lamento pelas crianças de hoje. Talvez nunca vejam uma vaca, cara a cara.

Meu avô Antônio era meu companheiro de empreitadas, todo o seu coração era meu. Tinha por mim um carinho e um amor imensuráveis. Minha avó Maria era mais enérgica, dava-me amor sem deixar de me ensinar a separar o certo do errado. A ela devo toda a minha formação. Ela foi minha avó, minha mãe e minha educadora. Nela eu tinha a mulher que fazia a melhor comida do mundo, em fogão a lenha, que costurava minhas roupas com esmero e bom gosto, que me ensinava a tratar os animais com respeito e carinho, que me mostrava a beleza de uma flor. Ela me passou os seus princípios: ser honesta, justa, generosa, não discriminar ninguém. Eu fui o seu maior e último amor. Fui, com certeza, a pessoa que ela e que meu avô, mais amaram em toda a sua vida. Ela, que não tinha papas na língua, declarava esse amor incondicional a todos, inclusive às próprias filhas.

Fui muito feliz e muito amada. Hoje, desde que acordei, o rosto dessa mulher maravilhosa, de pele clara e viçosa, cabelos brancos como a neve, não me sai da lembrança. Sinto saudades daquela época, daquelas pessoas tão queridas e tão importantes na minha vida. O tempo já os levou, mas eles continuarão para sempre perto de mim, principalmente minha avó Maria. Avó, mãe, amiga, educadora, formadora. Tudo o que aprendi naquela idade, foi com ela. Ela deixou em mim as suas marcas, os seus princípios, os seus valores, fonte inesgotável de energia e equilíbrio para enfrentar os momentos difíceis da vida.

Olhando para minha mãe e para minha tia, acho que talvez eu seja a mais parecida com vovó. Talvez por ter convivido intensamente com ela, numa fase de sua vida em que ela se dedicava exclusivamente a me educar e a me amar. Em certas épocas eu não entendia e sempre questionava porque tinha passado minha infância com os meus avós e não com os meus pais, como é normal. Hoje, não me importa mais entender. Só me resta agradecer ao destino e à vida, por ter tido uma mulher como Maria, ao meu lado, justamente quando minha personalidade se formava.

A Maria e a Antônio, estejam onde estiverem, todo o meu amor e a minha gratidão...

Pudessem as crianças de hoje ter uma Maria ao seu lado!

 

Rio, 24.05.2009

Maria Cristina Villares

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Escrito por Maria Cristina Villares às 21h40
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Música - Vida Interior

 

Havia ou ainda há, não sei, um programa sobre música clássica, num dos canais de televisão, talvez a Educativa, sábados à tarde, que era apresentado por Artur da Távola. Nunca fui ligada em música clássica, mas às vezes assistia, dependendo da programação. O que eu não me esqueço é da frase com que o apresentador sempre finalizava o programa: "Música é vida interior e quem tem vida interior, nunca padecerá de solidão".

Sábia frase, a do Artur. Tenho me interessado mais por música ultimamente, além de outras coisas que me têm feito bem à alma. Mas a música que mais tem me atraído é o samba. O samba antigo, típico do Rio de Janeiro, composto por Cartola, Nelson Cavaquinho, Erivelto Martins, Pixinguinha, Noel e tantos outros poetas fantásticos. Um, em especial, tem me chamado a atenção e por sinal está completando o seu centenário. É Ataulfo Alves, mineiro de Miraí.

Já assisti a alguns programas sobre ele, com Beth Carvalho, sua filha Luana, uma gracinha, Ataulfo Alves Filho, Sérgio Cabral e o excelente e simpaticíssimo apresentador Chico Pinheiro. Quando a gente começa a ouvir Beth e Luana cantarem as músicas de Ataulfo, dá vontade de cantar junto e a gente sai mesmo cantando e batucando com elas. Dá vontade de ir lá para a Lapa, ouvir um show de samba, de chorinho, dançar e cantar no ritmo gostoso dessas músicas. Como é possível não gostar? "Quem não gosta de samba, bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé", dizia Dorival Caymmi.                      

São músicas contagiantes, que invadem nossa alma, nos emocionam e ao mesmo tempo nos alegram, nos dão vida interior. E há uma safra nova de cantores fantásticos que estão resgatando todas essas preciosidades, como Teresa Cristina, o grupo Casuarina, entre muitos outros.

Depois de ouvi-las, sempre gosto de estudar a letra com atenção e interpretar o que o poeta queria dizer. Gosto de me colocar em seu lugar e sempre encontro poemas lindos, estórias encantadoras, melancólicas, verdadeiras dores de cotovelo, que nunca morrerão. São para sempre.

Lembro-me do Ataulfo nos programas de televisão, de antigamente. Sempre elegante, no vestir e na postura. Um gentleman, com seu lenço branco nas mãos, conduzindo as suas Pastoras.

 

Leva meu samba

(Ataulfo Alves)

 

Leva meu samba
Meu mensageiro
Este recado
Para o meu amor primeiro
Vai dizer que ela é
A razão dos meus ais
Não, não posso mais

Eu que pensava
Que podia lhe esquecer
Mas qual o quê
Aumentou o meu sofrer
Falou mais alto
No meu peito uma saudade
Mas para o caso não há força de vontade
Aquele samba
Foi para ver se comovia
O seu coração
Onde eu dizia:
Vim buscar o meu perdão
Mas leva meu samba!

Não dá vontade de sair cantando e batucando? Sinto muito Xexéo. Nunca fui muito ligada nos Beatles e nunca saberia dizer se Hey Jude era de Paul ou de John. Quero mais é ir para a Lapa e lavar a minha alma com o samba. "Laranja madura, na beira da estrada, tá bichada Zé ou tem marimbondo no pé".

Gente, não sou tirana. Deixo o tipo de música à escolha do leitor, mas eu fico com o samba. Mas seja ela qual fôr, nos dará vida interior, alegrará a nossa alma e aquecerá o nosso coração. Música é emoção e o mundo está carente de emoção.

 

Rio, 18.05.2009

Maria Cristina Villares

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Escrito por Maria Cristina Villares às 11h01
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Primeira Semana de Maio de 2009

 

Tenho tentado e acho que tenho conseguido ter o equilíbrio suficiente para enfrentar os momentos difíceis da vida. Tenho praticado o ato de ser contemplativa, a forma que encontrei de alcançar esse equilíbrio. Não tenho deixado de me colocar em primeiro lugar, tenho treinado a dizer NÃO, mas essa primeira semana de maio tem sido um inferno astral.

Reli ontem uma crônica de Rachel de Queiroz, chamada Talvez o Último Desejo, escrita mais ou menos em 1950, onde ela tem vontade de dizer a tudo e a todos: "Danem-se".

Se Rachel teve vontade, eu também tenho, de gritar bem alto: "Danem-se, porque eu vou embora para Salvador". Mas não adianta. Tenho que ficar por aqui mesmo, pelo menos por enquanto e segurar a barra, não deixar a peteca cair, manter o equilíbrio. Fazer o que estou fazendo agora, escrever, é uma das melhores formas que encontro para sair do olho do furacão. Foi a essa conclusão que ela, Rachel, também chegou.

Mas tenho meus motivos para estar estressada. Acompanhem comigo e vejam se eu não tenho razão.

Minha mãe está passando por uma bateria de exames, há uns dez dias. Nesse período eu não tenho feito outra coisa senão agendá-los nos laboratórios, ir com ela, voltar três dias úteis depois para pegar, enquanto acompanho em outro exame, levar os resultados nos médicos, ir à farmácia, fazer a receita de bolo dos remédios... Cansaram? Imaginem o meu estado! Se eu pudesse, ficaria longe de médicos por um bom tempo...

Para me informar procuro ler os jornais, mas a leitura não flui.

Até o Suplicy confessou que usou sua cota de passagens aéreas para comprar passagens para o exterior para a namorada, ou ex-namorada. Devolveu o dinheiro ao Senado agora. Mas será que teria devolvido se esse escândalo das passagens aéreas não tivesse vindo à tona? Não sei. E ele é uma das reservas éticas do Senado!

Outro Senador, que eu não me lembro do nome, mas é melhor lembrar - Sérgio Moraes do PTB do Rio Grande do Sul - declarou que está "se lixando para a opinião pública"...

Largo os jornais e ligo a televisão. O sertão do Nordeste e o Norte estão com enchentes. Tudo boiando. O sertão virou mar. O Rio Grande do Sul está numa seca só. Já estão com racionamento de água. Acho que viraram o país de cabeça para baixo. Lembram-se das enchentes em Santa Catarina, há alguns meses? Eu tenho a impressão que os governos, as ONG's, o povo em geral, ficou mais tocado com o sofrimento do pessoal de Blumenau do que com o do Nordeste. É ou não é verdade? A gente acha que nordestino já está acostumado a sofrer e os louros de Blumenau, não. Consequência: valorizamos mais o sofrimento do Sul.

A gripe suína chegou ao Brasil. O Ministro da Saúde e o Lula já declararam inúmeras vezes que está tudo sob controle. Mas já são seis casos no país. Será que está tudo sob controle? E dá para controlar? Não sei, não.

Por falar em controle, pego o controle remoto e resolvo dar uma olhada na novela das nove, na Globo, Caminho da Índias. Are Baba! Nada mudou em uma semana. É melhor continuar pedindo à Fátima, minha repórter investigativa, para me fazer o resumo da semana. Não faz mal que não seja muito preciso, porque é impossível saber os nomes daqueles personagens. Sempre guardo a Revista da TV do Globo de domingo para ela. Ninguém toca na revista. Segunda feira, uma de suas tarefas é ler o resumo da semana e me repassar. Meu pai aproveita e também tira umas casquinhas. Todo dia ele pergunta à Fátima o que vai acontecer na novela. Ainda bem que ela tem uma paciência bíblica...

Bem, desculpem-me pelo desabafo, mas às vezes é impossível ser poética ou lírica. Mas nada como uma boa noite de sono e amanhã tudo será melhor, mais auspicioso, como dizem na Índia. Assim é a vida. Estou usando esses termos de Caminho das Índias, com a ajuda de um email - dicionário, que recebi de minha amiga Marly. Namastê.

 

Rio, 08.05.2009

Maria Cristina Villares

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Escrito por Maria Cristina Villares às 08h25
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Valorizando o que Deve Ser Valorizado

 

Depois dos cinqüenta, sejamos homens ou mulheres, tudo muda. Depois dos trinta e mesmo dos quarenta, não senti grandes mudanças, mas agora, depois dos cinqüenta, passei e continuo passando por profundas transformações. Acredito firmemente que eu não seja a única, que todos nós, de alguma maneira mudamos, depois de meio século de vida. E é bom que mudemos. É sinal de crescimento.

É claro que a idade nos traz problemas. As roupas de antigamente já não servem mais e não adianta fazer a dieta da lua, do abacaxi, das proteínas, porque para perdermos um quilo, levamos meses. Os óculos passam a fazer parte de nós.

Também não adianta querermos dar uma de super atleta, porque aí pode complicar o joelho, a coluna. Surgem as artroses, os pinçamentos, a pele vai perdendo o antigo viço, os cabelos ficam mais ralos e branqueiam. Estão assustados? Mas é a verdade. Só nos resta enfrentá-la.

É triste vermos nossos pais envelhecendo e até amigos partindo. Imaginamos que um dia isso também acontecerá conosco, porque ninguém fica aqui eternamente. Os que possuem netos têm dúvidas sobre como ajudá-los a enfrentar esse mundo hostil, totalmente diferente daquele em que vivemos quando tínhamos a idade deles. Não sei o que dizer.

Só sei que existe um momento nessa fase da vida em que acordamos. É isso mesmo, acordamos com uma nova visão, na qual a palavra chave é "EQUILÍBRIO". Equilíbrio necessário para superarmos o lado negativo, que sempre existirá.

Quando acordamos, compreendemos que não existe felicidade completa, que não adianta corrermos atrás, porque nunca a alcançaremos. Nada é perfeito. Compreendemos que existem momentos felizes e momentos difíceis, que são superados e que outros virão, demandando de nós, força e luta. Passaremos novamente por períodos de mágoa e de dor. Por isso o equilíbrio é vital e ele surge justamente nessa fase da vida. É um renascer.

Quando renascemos e olhamos à nossa volta, compreendemos que fazemos parte do Universo e que com ele devemos interagir para valorizarmos os bons momentos, os momentos de felicidade, que nos dão energia para continuar lutando. A vida é uma eterna luta.

Começamos então a olhar a Natureza e o Mundo, com um olhar mais sofisticado. Aprendemos a ver e a escutar. Passamos a valorizar o que deve ser valorizado, como a imensa variedade de cores dos hibiscos, o verde das árvores, o reflexo da lua cheia no mar, à noite, o canto dos pássaros, as verdadeiras amizades. Aprendemos a não deixar de fazer o importante para fazermos somente o urgente. Chegamos à conclusão de que não existe amor eterno, mas sim companheirismo duradouro. Passamos então a valorizar um relacionamento que nunca foi valorizado, porque percebemos que é aquela a pessoa que nos faz viver esses bons momentos e é com ela que desejamos compartilhá-los. É essa a pessoa que nos conforta quando mais precisamos, que está sempre pronta para nos acompanhar nessa jornada da vida, para qualquer direção e a qualquer hora, que nos ouve, nos estende a mão.

Descobrimos que tudo o que nos dá prazer, tem que passar pelo coração. E o melhor de tudo é que passamos a nos dar o direito de fazer o que nos dá prazer. Passamos a separar o joio do trigo e começamos a dar mais de nosso tempo a nós mesmos, nessa seleção equilibrada das tarefas inevitáveis a cumprir e das coisas que nos alimentam, que nos nutrem.

É nessa hora também que passamos a valorizar a nossa casa, a nossa terra, a nossa cidade, o nosso povo, a nossa música. Passamos a prestar mais atenção nas letras de certas músicas e concluímos que são verdadeiros poemas. Concluímos que é muito bom ouvir essas músicas com o nosso companheiro ou companheira ao lado.

É ótimo quando descobrimos que nunca é tarde para mudar ou para aprender. Se a vida não está bem, vamos tratar de mudá-la. Temos obrigação de fazer o melhor para nós mesmos, pois somente assim poderemos fazer o melhor pelos que estão à nossa volta.

Querem um conselho? Dizem que conselho não se dá. Então vai aqui uma opinião. Valorizem quem valoriza vocês. Olhem para tudo e vejam o que há de bonito nas coisas simples do dia a dia. Escutem os seus corações, a sua alma. Soltem o seu emocional e deixem que ele se revele junto ao racional. O tempo corre. Não esperem demais.

Terminando e mudando de assunto: no bate boca no STF, entre Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, assim como Veríssimo, também torço por Barbosa.

E na luta de Dilma contra o linfoma, torço imensamente por ela, a mulher, o ser humano.

 

Rio, 01.05.2009

Maria Cristina Villares

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Escrito por Maria Cristina Villares às 16h39
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Voltando de Paris

 

Estamos nós aqui novamente, 23 de abril, quinta feira, Ana e eu no avião da Tam, voltando de Paris para o Rio. Mais uma vez, a decolagem foi de uma pontualidade britânica, exatamente às 21:50 h. A previsão para a chegada no Rio é às 5:00 h da manhã do dia 24, sexta feira. Demos sorte. O vôo está vazio e conseguimos pegar aqueles quatro assentos do meio, somente para nós duas. Vamos poder esticar melhor as pernas.

Passamos ótimos dias em Paris. O tempo estava muito bom, sem chuva, temperatura amena. Esfriava um pouco mais à noite, mas nada que incomodasse demais.

Pude rever lugares lindos, como o Museu D’Orsay, o Jardin des Tuileries, a Champs Elysées, o Arco do Triunfo, o Sena, com aquelas pontes maravilhosas... Paris é muito linda, pena que seja tudo em euros e aí é melhor deixar para converter para reais no Brasil, porque senão é melhor nem sair de casa.

Saímos de carro, com uma amiga de Ana, que vive em Paris há uns cinco anos, Marilza. Ela é casada com um francês. Já conseguiu a documentação francesa. É uma pessoa ótima, super simpática, alegre e nos levou pelo interior da França até a Normandia, nas praias do desembarque da Segunda Guerra Mundial, Honfleur, Deauville e Trouville. Atualmente são balneários, mas possuem muita história. Honfleur parece uma pintura, com aquelas casinhas todas coloridas e os barcos na frente. Mas em termos de praia, meus amigos, um horror! Para começar a água deve congelar os ossos, mesmo no verão. Bate um vento gelado, que só pingüim agüenta e o pior: não vi um grão de areia, só pedra.  Já imaginaram sentar numa praia gelada, de casaco e ainda com o traseiro em cima de pedras e nada de areia! Mas valeu pela história do local, pela arquitetura e pela companhia de Marilza.

No fim de semana que passamos por aqui fomos para Amsterdam, encontrar uma outra amiga que mora no Rio, mas que estava por aquelas bandas naquele fim de semana, Lúcia. Ela é ótima. Bebemos todas, mas ficamos por aí. Amsterdam é realmente linda, com todos aqueles canais, aquelas casa fantásticas e um povo super simpático. Todos paz e amor, no stress, mesmo falando aquela língua que ninguém entende, o Dutch. Fizemos um cruzeiro pelos canais. Foi muito legal. Adorei!

Bem, passamos uns dez dias fora. Foi o suficiente para relaxar e descansar a cabeça, porque o corpo está arrasado de tanto andar.

Por Ana, ela ficaria viajando a vida toda, não sente falta de seu canto. Eu já sou diferente. Gosto de viajar, mas depois de uns dez dias começo a ficar cansada e mal humorada. Nada mais me atrai, quero voltar para casa.

Nessa hora a melhor parte da viagem para mim, é voltar para o meu Brasil, para o meu Rio de Janeiro, para a minha Copacabana, para o meu canto. Estou morrendo de saudades de comer arroz, feijão e ovo frito, deitar na minha cama, com o meu travesseiro, usar o meu banheiro, olhar para as minhas coisas, ver minha família. Sinto uma saudade imensa disso tudo.  Não vejo a hora de chegar em CASA!

Dei uma olhada no mapa online e vi que estávamos sobre Salvador. Olhei pela janela e consegui ver aquelas luzes todas, contornando a costa da primeira capital do Brasil. Lindo, emocionante. Parecia um imenso colar dourado. Salve, Salvador! No final das contas, gosto mais de você do que de Paris.

Viajar é muito bom, mas voltar é muito melhor. Gonçalves Dias tinha razão:

 

"Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.”

Brasil, 23.04.2009

Maria Cristina Villares

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Escrito por Maria Cristina Villares às 13h14
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Viajando para Paris

 

Hoje é dia 15 de abril, quarta feira. Ana e eu embarcamos ontem, para Paris às 23:50 h, pontualmente, pela Tam, num vôo direto do Rio. Ainda bem que não precisamos fazer conexão em Cumbica, o que é um verdadeiro suplício. Pelo menos agora, o Rio está tendo vôos diretos, internacionais, com maior regularidade. Não podemos reclamar de nada até o momento. O horário foi rigidamente cumprido e o jantar servido a bordo foi bastante razoável. Tomei um bom vinho tinto, com um comprimido de Rivotril de 2 mg. Até agora, nada de sono e então resolvi pegar o notebook para contar para vocês o que está acontecendo.

Ana está vendo um filme do Brad Pitt, mas eu não consigo me concentrar em filmes em viagens. Prefiro ficar olhando pela janela, vendo se consigo identificar algumas constelações e ficar acompanhando aquele mapa online. Nesse momento, com quase duas horas de vôo, já passamos por Salvador, a minha cidade querida.

Quando o sono chegar, eu paro e depois continuo. Mas vou fazer o possível para escrever o mais que eu puder. Olhei pela janela. Tudo escuro, somente as estrelas cintilam. Pareceu-me ver o Cruzeiro do Sul. Deve ser ele mesmo, pois ainda estamos abaixo da linha do Equador e a estrela de baixo aponta justamente para o Sul. Não consigo ver a Lua. Ou deve estar do outro lado do avião, ou deve estar inspirando outros corações enamorados.

Acabou de aparecer um comissário de bordo que gentilmente pediu-me para fechar a janela. Parece que o pessoal quer dormir e aquelas luzinhas piscando na ponta da asa do avião atrapalham o sono deles. Fechei, mas logo dei uma levantadinha de leve e olhei para ver se o Cruzeiro ainda estava lá. Estava.

Olhando para o mapa, já passamos por Arapiraca e estamos chegando a Garanhuns. Garanhuns é a terra do nosso Presidente. Ou não? Perguntei a Ana e ela me confirmou. Estamos em Pernambuco. Daqui a pouco, somente o mar estará abaixo de nós. Quando será que vai clarear? A diferença de horário daqui para Pais são de cinco horas. Lá já são sete horas da manhã.

Já pratiquei uma boa ação hoje. Depois que chegamos ao Aeroporto do Galeão, recuso-me a chamá-lo de Tom Jobim, e fizemos o check-in, fomos, é claro, ao Freeshop. Ana já queria começar a fazer compras. Encantou-se por uma bolsa da Donna Karan. Mas eu consegui convencê-la a deixar para começar a comprar mais tarde. Mas eu sei que daqui a pouco, no avião, ela vai começar e eu não vou reprimir. Repressões não. Estamos de férias.

Olhei para o mapa. Já estamos na Paraíba, bem em cima de Campina Grande, a uma altitude de 37.000 pés, mais ou menos 11.000 metros.

Na poltrona do nosso lado, com o corredor no meio, ainda bem, há um jovem rapaz, com toda a pinta de estrangeiro, bêbado feito um gambá. Nem sei como ele conseguiu embarcar. A aeromoça precisou vir colocar o cinto de segurança nele. Mesmo assim, a sua cabeça balança para frente e para trás. Ana e eu sentimos um bafo de álcool danado. Não reparei se ele jantou. Não deve ter comido. Está apagado.

Levantei de novo a janela. Continua lá o Cruzeiro. Ana está firme, concentrada no Brad Pitt. Só vai parar de ver quando começarem a vender as muambas. Aí eu também vou querer ver, confesso.

Já estamos pertinho de Natal e daqui a pouco vem o Oceano Atlântico. Aí o mapa perde um pouco a graça e eu vou ver se durmo. Mas antes quero ver o que tem para vender no avião e ir ao banheiro.

Voltei decepcionada do banheiro. Calma gente, não houve nada de anormal. Apenas perguntei à aeromoça quando começariam a vender os produtos do Freeshop. Sabem a resposta? Nos destinos da América do Sul para a Europa, não há Freeshop a bordo. Ana vai ter que esperar para gastar lá em Paris, mesmo. Melhor. Muito mais opções!

Vou parar por aqui, porque minha bateria está acabando, ou melhor, a do notebook, e está começando a me dar um soninho. Daqui a sete horas e meia estaremos chegando a Paris. Vou tentar dormir um pouco e de lá eu continuo. O problema é que essas poltronas inclinam num ângulo máximo de vinte graus e são duras feito páu. Mas vamos tentar. Já estamos sobre o Atlântico.

Acordei. Deu para dar uma cochilada. Ana está nos alongamentos e eu vou acompanhá-la para melhorar a circulação.

Já vão servir o café da manhã e daqui a pouco estaremos em Paris.

À bientôt, mes amis.

Brasil, 15.04.2009

Maria Cristina Villares

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Escrito por Maria Cristina Villares às 13h13
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Quarta Feira da Paixão

 

Estamos na Semana Santa. Hoje é quarta feira. Amanhã praticamente não haverá nada, nem ninguém no Centro da cidade. As pessoas já devem ter começado a viajar hoje, à tarde.

Almocei em casa e com medo do trânsito, peguei o metrô e fui sentada até a Estação Carioca. Naquele horário, geralmente a gente consegue sentar-se, aqui, na Estação Siqueira Campos. Se não der bobeira.

Acho o metrô o mais prático meio de transporte, seguro, limpo, econômico, mas incrivelmente sem sal, especialmente numa cidade como o Rio. É muito mais agradável ir de carro, ou mesmo de ônibus, pela superfície, principalmente pela orla e ir observando a paisagem, as pessoas, ouvindo uma música.

Metrô é bom, mas é chato! A gente não vê nada, somente os rostos das pessoas presas naquele vagão, sérias, loucas para chegarem ao seu destino e respirarem um pouco de ar natural. Não vou dizer que o ar é puro, porque não é. Tem poluição, mas pelo menos é natural.

Felizmente cheguei na Carioca e desci. Pude ver a luz do dia. Um dia um pouco nublado, mas com a temperatura amena. Passei atrás do Edifício Avenida Central e saí no Largo da Carioca. Havia alguma coisa diferente. O ar estava mais limpo, parece que havia mais espaço, havia pessoas caminhando em volta de uma escultura, que parecia um anjinho barroco tocando harpa.

Lembrei-me! A Prefeitura tinha tirado os camelôs dali e estava começando a revitalizar a área. Muito bom. Já no segundo dia dava para sentir o efeito.

Parece que as pessoas compartilhavam da minha sensação. Caminhavam, observavam, haviam tomado conta do espaço. Eu quis parar para ver melhor a escultura do anjo, mas entre nós havia muitos pombos e eu achei melhor não me arriscar. Outro dia faço amizade com eles e peço licença para observar o anjinho barroco, mais de perto.

Mas observei os pombos. Havia muitos no chão, bicando alguma coisa aqui e ali. Na cabeça do anjo havia um, dormindo, no maior sono, sem a menor cerimônia. Logo abaixo dele, havia mais dois que me chamaram a atenção. Eles pareciam conversar e o mais interessante, um era marrom. Engraçado, quase não se vê mais pombos marrons, geralmente são todos daquela cor acinzentada, escura. Olhei para o chão e confirmei. Somente aquele era marrom. Será que ele era pombo correio? Um daqueles que levou um celular para um presídio de segurança máxima, no interior de São Paulo? Ou não foi em São Paulo? Será que ele era o pombo marginal? Logo ele, tão animado, conversando com o outro, passeando os dois pelo pescoço do anjo. Não. Não deveria ser. Melhor esquecer aquele pombo correio marginal. Para que tirar toda a poesia do momento?

Deixei os pombos para lá e o anjo também e continuei o meu caminho. O trabalho me chamava.

Lá de cima, do De Paoli, olhei pela janela da sala, que por minha sorte, fica de frente para o Largo da Carioca e vi que ali estava renascendo um lugar bem interessante, cheio de história. Por sinal, Páscoa é renascimento.

Depois de tomar algumas providências no trabalho, resolvi ir ao banco e aproveitar para tomar um café na rua. É um dos meus programas favoritos, no Centro do Rio.

Quando entrei na Avenida Rio Branco, vi que o movimento estava maior do que o de costume. As pessoas estavam agitadas, filas em todas as lojas de chocolates, apesar de todo mundo fazer dieta, filas em bancos, filas nos cafés. Desisti de tomar o meu. Gosto de sentar e ficar tomando o meu café com calma, observando a rua e as pessoas e hoje não seria possível. Logo começou a chover um pouco. As chuvas de outono. Aí piorou. Guardas chuvas para todos os lados, pessoas andando na contra mão, outras paradas no meio da calçada, atravancando o fluxo. Uma loucura. O trânsito estava todo congestionado. Os motoristas cariocas, em sua grande parte, têm o péssimo costume de fechar os cruzamentos. Eles não passam e nem deixam os outros passarem. Minha última tentativa, depois do banco, foi entrar na Drogaria Pacheco. Também havia filas imensas. Aliás, eu não entendo como pode existir tanta farmácia no Rio. Só pode ser lavagem de dinheiro.

Não tive alternativa a não ser voltar para a Corretora e ficar olhando o anjinho barroco através da minha janela. O pombo marrom não estava mais lá. Será que tinha ido levar alguma encomenda para outro presídio? Não, ele não. Hoje é Quarta Feira da Paixão...

Rio, 08.04.2009

Maria Cristina Villares

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Escrito por Maria Cristina Villares às 16h15
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A Lua

 

Vários cronistas têm escrito sobre o outono no Rio e citaram até Drummond: “O outono é a estação da alma”. Concordo com todos eles, em gênero, número e grau. O outono no Rio tem estado realmente deslumbrante, principalmente, após aquele fevereiro escaldante. Dias de sol, temperatura amena, céu azul. Mas como não quero ser repetitiva, vamos então falar sobre a Natureza e, em especial, sobre a Lua, mulher, irmã e companheira.

O Sol. De repente ele se cansa e chama as nuvens para ajudá-lo, ou melhor, para trabalharem enquanto ele se refaz. Afinal ele é o astro rei e elas têm mais é que obedecê-lo. “Obedece quem tem juízo, manda quem pode”, ou ao contrário, mas dá no mesmo. Chegam as nuvens silenciosamente. Primeiro as pequeninas, pulando aqui e ali e em pouco tempo estão todas unidas num esparso nevoeiro, acinzentando o dia. Cai uma chuva fininha, persistente talvez, que lava o ar, a terra, as plantas. Sobe do chão aquele cheiro de terra molhada. O Sol tinha combinado com o Mar. Iriam, os dois, fazer essa chuvinha cair por um tempo.

No dia seguinte, já refeito de seu cansaço, reaparece o Sol e vai aquecendo devagarinho o coração da gente, manda o nevoeiro e a chuva embora e escolhe algumas nuvenzinhas para fazer-lhe a corte.

Enquanto isso, aqui na terra, o verde das árvores e dos gramados está exultante, cheio de si, exibindo seus vários matizes por onde alcança a nossa vista. As outras cores também surgem das flores, pedindo licença ao verde, para aparecerem. Como ele é soberano e sábio, cede-lhes gentilmente espaço. Aí surge o vermelho todo sensual, o amarelo, de nariz em pé, o rosa alegre e juvenil. A brisa corre sorrateira e apressada pelas ruas e o Mar continua sério, poderoso, sempre coexistindo com o Sol. Marte e Netuno. Cada um tem seu reino, não há tentativas de tomada de poder. Os dois conhecem perfeitamente as suas forças e cada um reina absoluto em seus domínios.

A noite vem. É hora das estrelas e da Lua entrarem em ação enquanto o Sol vai aquecer outros lugares. As estrelas são como crianças travessas, brilhando aqui e ali, inocentes, puras, castas, como disse Hamlet. Só pensam em brincar. Não estão muito preocupadas conosco, não.

Já a Lua é diferente. A Lua não é casta. Ela já pecou, já amou, já sofreu, passou por períodos de depressão, mas agora está de bem com a vida. Machado de Assis disse que ela teve um caso amoroso com um astro vagabundo por milênios, que não teve um final feliz. Talvez, mas ela acabou dando a volta por cima e está bem resolvida, feliz, fazendo charme para vários astros jovens e recebendo elogios de toda a galáxia.

A Lua é vivida, experiente e por isso nos compreende, nos ouve, nada recrimina. Escuta tudo com paciência e é sempre boa conselheira. Low profile, aparece majestosa e enigmática. Nunca reclama do cenário que foi preparado para ela, porque ela não precisa de palco. Ela é o próprio cenário. Uma perfeita show woman.

Surge de mansinho e fica esperando que a ela recorramos e que a ela contemos todas as nossas dores e amores, dissabores e desamores. É tão poderosa, tão femininamente poderosa, que domina o Mar, sem que ele se dê conta. Faz com que suas marés subam ou desçam, controladas por ela. E quando o Sol vem ressurgindo, não se intimida e não desaparece correndo. Fica ali mais um tempo, até que se sinta pronta para partir.

Lembro-me de quando eu era criança, em noites de Lua cheia, meu avô mostrava-me São Jorge montado em seu cavalo, lutando contra o dragão. A Lua os carregava. Eu os via nitidamente, como Caetano também já os viu.


“lua de são jorge
cheia branca inteira
oh minha bandeira
solta na amplidão
lua de são jorge
lua brasileira
lua do meu coração
lua de são jorge
lua maravilha
mãe, irmã e filha
de todo esplendor”


Que tal voltarmos a olhar para a Lua, e tentarmos ver São Jorge em seu cavalo? Será que essa aparição não nos fará bem, em tempos tão difíceis, de valores tão distorcidos? Assim como o outono é a estação da alma, a Lua é o astro do coração, da nossa emoção, do nosso “eu” mais profundo e verdadeiro.

Rio, 03.04.2009

Maria Cristina Villares

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Escrito por Maria Cristina Villares às 10h25
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Ai de ti, Copacabana – Segunda Versão

 

Copacabana nesses últimos dias expôs novamente suas entranhas na mídia. Pelo menos dessa vez não ficou só, levou consigo Botafogo, Humaitá, Lagoa e Jardim Botânico. A causa? A de sempre. A guerra do tráfico. Traficantes da Rocinha querendo tomar os pontos da Ladeira dos Tabajaras, que tem suas saídas principais em Copacabana, mas se comunica através dos morros com os outros bairros envolvidos.

 

Ai de ti, Copacabana - escrevia Rubem Braga em sua profética crônica, em 1958.

“Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio forte se voltarão contra teu próprio corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão”

 

Como esse não é um espaço para bombardear os meus amigos leitores com notícias ruins, as quais eles já estão cansados de tomar conhecimento através de jornais, revistas, televisão, rádio e internet, vamos viajar pelo túnel do tempo e descobrir um pouco da história desse bairro, internacionalmente conhecido – Copacabana“mirante azul” no dialeto inca.

 

A antiga praia de Sacopenapan não era mais do que um areal deserto, repleto de cajueiros, quando alguns pescadores ergueram uma capelinha no extremo sul da praia e ali puseram uma cópia da imagem de Nossa Senhora de Copacabana, trazida da Bolívia, do Lago Titicaca, por mercadores peruanos. A imagem acabou dando o seu nome à praia e ao bairro.

Mais tarde, bem depois da construção do Forte do Posto Seis, a igrejinha foi demolida e a Matriz de Nossa Senhora de Copacabana foi transferida para a Praça Serzedelo Correia.

Copacabana não tinha acessos terrestres e a Ladeira do Leme foi o primeiro, e lá no alto construíram um Forte, o do Leme. Ainda hoje podemos ver os seus arcos, que resistem bravamente ao tempo. Naquela época, os limites da Zona Sul da cidade estendiam-se até Botafogo. Copacabana era então, um paraíso inexplorado.

O Dr. Figueiredo de Magalhães, que era proprietário das terras onde hoje fica a Praça Serzedelo Correia, teve a idéia de organizar uma linha de diligências, por volta de 1870. Era uma forma de seus clientes se locomoverem, já que eram hóspedes do hotel que ele próprio havia construído na praia.

Logo depois, abriu-se o Túnel Velho, para ligar Copacabana a Botafogo, e começou a circular uma linha de bonde. Surgiam então empresas imobiliárias, dando início ao loteamento do bairro. Os empresários Teodoro Duvivier e Paula Freitas concluíam a abertura da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, implantando a Praça Serzedelo Correia e o final do Leme. Ao mesmo tempo, as empresas Barão de Ipanema e Constante Ramos loteavam a área que ia da Rua Figueiredo de Magalhães até o Morro do Cantagalo.

E a Avenida Atlântica? Vocês devem estar curiosos. Calma, ela só foi inaugurada depois, no início do século XX, pelo Prefeito Pereira Passos. Nessa época, Copacabana já tinha umas quarenta ruas, duas avenidas, quatro praças, duas ladeiras e dois túneis. O novo bairro já pulsava.

No centenário da Independência, o então empresário Octávio Guinle resolveu construir na orla, um luxuoso hotel, usando somente material importado. Eis que surge o Copacabana Palace Hotel, inaugurado no dia 1 de setembro de 1923. Ainda hoje ele lá está, majestoso, sofisticado, lindo, hospedando reis, políticos, artistas e celebridades. Um cartão postal da cidade.

E desde então Copacabana vem crescendo e envelhecendo. Foi cenário do surgimento da Bossa Nova, no Beco das Garrafas e infelizmente, nos últimos tempos, tem sido cenário de guerra urbana.

No Réveillon, chega a atrair mais de um milhão de pessoas, que acompanham a famosa queima de fogos e oram por dias melhores.

 

Daí de cima, olha para nós, querido Braga e desfaz a tua profecia!

 

Rio, 30.03.2009

Maria Cristina Villares

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Escrito por Maria Cristina Villares às 19h51
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As Coisas Boas de São Paulo

 

Gosto de ir a São Paulo, a começar pela viagem. Adoro chegar ao Aeroporto Santos Dumont e pegar um vôo para a capital paulista. Não existe aeroporto mais carismático do que o Santos Dumont, principalmente a sua parte antiga. As colunas revestidas de mármore romano, aqueles lindos painéis no saguão central, que felizmente não foram destruídos no incêndio de 1998, me trazem lembranças da infância, quando viajávamos para São Paulo de Electra II, na Ponte Aérea. Era um avião charmoso, seguro e confortável. Lembro-me também de ter viajado, antes ainda, nas Asas da Panair. Tudo isso ficou no passado. Mas ainda não há nada melhor do que decolar ou aterrissar, vendo o Pão de Açúcar e a Baía da Guanabara.

Outro dia fui levar Rodrigo, um amigo paulista, para embarcar. Fomos mais cedo, estacionamos e enquanto esperávamos o horário do seu vôo, fomos tomar um vinho e conversar, matar as saudades no 14 Bis, aquele restaurante no segundo andar da parte antiga. O papo estava tão animado, que ele quase perdeu o vôo. Mas ainda deu tempo de embarcar.

Mas vamos para São Paulo, amigo leitor? A chegada em Congonhas já não é tão prazerosa. Quando o avião começa os procedimentos para aterrissar, olho pela janela e vejo milhares de casas e edifícios, começo a pensar que é grande a probabilidade dele pousar sobre um grupo de edificações. Já vi esse filme antes. Parece até que eu poderia acenar para os moradores daqueles apartamentos. Mas Deus ajuda e até agora tenho tido sucesso, ou melhor, os pilotos com os quais eu tenho viajado, têm tido a perícia necessária.

São Paulo é uma cidade com várias coisas muito boas. Pena que agora, com o trânsito cada vez mais caótico, nem sempre podemos aproveitá-las. Há um ano mais ou menos, eu costumava ir e ficar lá por dois dias. Gostava de ficar num hotel na Rua Hadock Lobo, perto da Paulista. No primeiro dia eu me dedicava aos negócios e aos amigos, que trabalham todos concentrados na região do Brooklin. No segundo dia, eu me dedicava a bater perna pela área da Oscar Freire, Alamedas, Jardins, almoçava muitíssimo bem, via lojas lindas e ótimas, ia a um teatro. Gostava de ficar caminhando por aquelas ruas e observando os prédios antigos, bem cuidados, com uma arquitetura imponente, elegante. A Avenida Paulista também tem o seu charme, com o Masp, o Parque Trianon, os prédios altos e modernos, como o da FIESP. É o centro financeiro do país. Grande parte do PIB brasileiro está ali, naqueles 2700 metros de avenida.

Hoje, fico num hotel perto do aeroporto, no Brooklin. Dessa forma eu vou a pé ver meus amigos e resolver as pendências de negócios ao mesmo tempo. Se eu tentar ficar na Hadock Lobo, talvez leve umas quatro ou seis horas para chegar até lá. Isso se não houver uma enchente e meu taxi ficar boiando numa daquelas avenidas. São Paulo já não é mais a terra da garoa.



Escrito por Maria Cristina Villares às 15h16
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As Coisas Boas de São Paulo-continuação

 

Lá, os serviços em geral são excelentes, bem melhores que os do Rio. Há profissionais bem mais preparados do que aqui. A medicina, por exemplo, é insuperável. Há um cirurgião cardiovascular, Dr. Sergio Almeida de Oliveira, que é um iluminado. É um profissional internacionalmente conhecido, inigualável no Brasil e um dos melhores seres humanos que eu já conheci. Dr. Sérgio foi estagiário do Dr. Zerbini, fez o Juramento de Hipócrates e o cumpre à risca. Acho que a maioria dos médicos de hoje, talvez nem saiba quem foi Hipócrates. Claro que há exceções, mas não são tantas assim. Em 2004, minha mãe foi operada por ele, de um aneurisma na aorta ascendente, na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Operação de alto risco, mas até hoje ela está muito bem, sem qualquer seqüela. Lembro-me de que todas as noites o próprio Dr. Sérgio ia visitar-nos no hospital. Aliás, esse é um hábito que ele herdou do Dr. Zerbini, depois de terminadas as cirurgias e consultas do dia, sai visitando todos os seus operados em seus quartos, enfermarias, sejam o que forem. Não há palavras para descrever o tratamento e o carinho recebidos por ele, por sua equipe e pela equipe da Beneficência, bem diferente da sua prima carioca.

Mas mesmo sem poder bater perna pela área da Oscar Freire, ainda gosto de ir a São Paulo, principalmente para rever essas pessoas com quem tenho relações comerciais e que são, antes de tudo, amigos muito queridos. Trabalham todos na Seguradora Zurich. Tenho certeza de que se um dia, nossas relações comerciais terminarem, a nossa amizade seguirá. Às vezes sinto saudades e telefono, cobro uma vinda deles ao Rio, mando uns emails desaforados, mas são pessoas que vivem enroladas em mil problemas de trabalho e nem sempre podem vir. Eu entendo. Quando canso de esperar, vou até lá, passo o dia resolvendo as pendências de trabalho e ao mesmo tempo aproveitando a companhia de Neto, Rodrigo e todos os outros e à noite, saímos para jantar. Volto no dia seguinte, feliz por ter estado na companhia de pessoas queridas.

Eu tenho certeza de que vocês devem estar se perguntando. Afinal de contas, o que restou de bom em São Paulo, se não podemos nos deslocar pela cidade e ainda corremos o risco de morrermos afogados? Restou o mais importante, meus amigos. Restou gente. Gente como o Dr. Sérgio, como os meus amigos da Zurich e como outros amigos igualmente queridos, da época da Engenharia na UFRJ, no Fundão, como o Marçal, o Milton, que estão instalados naquela cidade. E por acaso existe coisa melhor do que gente de verdade?

 

Rio, 30.03.2009

Maria Cristina Villares

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Escrito por Maria Cristina Villares às 15h15
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Um Susto ou Um Surto?

Era uma manhã de domingo em Londres. Outono. A família Brown, o pai, a mãe e o filho pequeno acordaram, tomaram seu café britânico, tudo rigorosamente no horário, pegaram o metrô, foram passear no Hyde Park e depois foram almoçar à beira do Tâmisa. Quando estavam no meio do seu almoço, tudo preparado em casa por Mrs. Brown, sanduíches de rosbife com pepinos em conserva, torta de maçã e uma garrafa térmica com chá quente, o filho levantou-se espantado e falou:

- Father. Is that a bear? Shall we be eaten?

- Oh my dearest. I sincerely do not know! – respondeu Mr. Brown.

- God save the Queen! – exclamou Mrs. Brown.

A essa altura já havia uma confusão britânica à beira do Rio Tâmisa. Outras pessoas já tinham visto a figura de um urso branco, em cima de um bloco de gelo, vindo em sua direção. Na realidade era apenas uma escultura de um urso polar, que havia sido feita para divulgar o lançamento de um novo canal de televisão na Inglaterra, dedicado a ecologia, história natural e meio ambiente. Os organizadores tentavam também chamar a atenção para o aquecimento global, que aumenta o derretimento das calotas polares e ameaça esse animal de extinção. Mas os britânicos, como não haviam sido prevenidos e andam estressados com a derrocada da libra esterlina, ficaram aterrorizados. Até que tudo ficasse devidamente esclarecido, foi um tumulto geral. A maior preocupação dos ingleses era com a Rainha e com o Príncipe William, seu neto mais velho. Charles e Camilla não estavam sendo muito lembrados, não. Tudo ficou realmente calmo, quando a equipe de organizadores veio ao local para explicar o evento e confirmou que Elizabeth II e seu neto William, estavam bem e a salvo no Castelo de Windsor, a algumas milhas de distância de Londres.

 

Mais tarde, numa cidade do Texas, a família Smith, o pai, a mãe e uma filha pequena, viam televisão no domingo à noite, em casa, comendo pipoca e sanduíches de manteiga de amendoim, com coca cola. Não é que aparece a escultura do urso para assustar os americanos também! Mas o susto nos Estados Unidos foi diferente. A menina gritava:

- Dad! There comes a bear!

- Under our beds! Right now! – ordenou Mr. Smith.

- Oh, my God! We will be attacked. – chorava Mrs. Smith.

 

Já debaixo de suas camas, comendo as pipocas e com seus celulares em punho, a família Smith conseguiu chamar a polícia e obteve a explicação de que era apenas uma escultura de um urso e que a escultura estava em Londres, muito longe do Texas. Mas não foi tão fácil assim convencê-los e muitas outras famílias americanas passaram pela mesma experiência aterrorizante. Ninguém acreditava que o urso não era de verdade. Outro problema sério era fazê-los entender que Londres ficava na Inglaterra, com o Atlântico Norte separando-os. Coisas de Geografia, não tão claras para todos os mortais. As próprias autoridades locais já estavam passando a duvidar e resolveram chamar o Pentágono, a CIA, a Casa Branca. Obama precisou ir à CNN e fazer um pronunciamento, explicando que era tudo mentirinha, bem longe dali, que ele, Michelle, as meninas e a sogra estavam bem, que todos podiam sair de seus esconderijos e terminar seu domingo numa boa, comendo as pipocas, os sanduíches de manteiga de amendoim e tomando a coca cola, em frente à televisão. Os bombeiros tiveram bastante trabalho naquela noite, porque algumas pessoas ficaram entaladas e não conseguiam sair dos lugares onde haviam se metido. Mas ao final tudo se resolveu e todos puderam assistir à final do Campeonato Americano de Baseball. Não sei informar quem venceu.

 

Semanas depois, um garotinho baiano viu toda essa confusão em Londres e no Texas, no Jornal da Bahia e perguntou calmamente ao pai:

- Painho. Por que essa confusão toda por causa de um urso de brinquedo?

- Meu rei, painho tá cansado. Qualquer dia painho tenta entender pra te explicar.

- Precisa não, painho. Vai dar muito trabalho e eu também tô cansado.

- Então vamos descansar juntos, que é melhor. Esse urso não vai chegar aqui não. Tá muito longe.

Rio, 23.03.2009

Maria Cristina Villares

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Escrito por Maria Cristina Villares às 22h40
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No Salão de Cabeleireiro

 

Minhas amigas, digam-me com sinceridade. Quais de nós não temos problemas com os nossos cabelos? É uma eterna preocupação. Corto, não corto, pinto, de que cor? Faço luzes, pinto de vermelho? Aliso, agora quero cachos, mas nem tantos. Somos instáveis, mas mudar os cabelos, ao nosso gosto, é tudo de bom, para as que têm os cabelos versáteis, que podem ser mudados ao gosto de sua dona, na hora em que bate aquela vontade. Sortudas essas! Eu não possuo a mesma sorte. Tenho os cabelos finos, ralos e lisos. Inventar qualquer coisa é impossível, a não ser mudar a cor. O corte, eu já desisti, me convenci definitivamente de que tenho que usar aquele corte tipo curto, meio repicado, que fica pelo menos com um pouco de volume e é fácil de cuidar. Variar, só se eu usasse uma peruca. Já até pensei na possibilidade, mas ainda não acabei de pensar. Mas para eu chegar a esse corte ideal, levou tempo, até que eu encontrasse um cabeleireiro que tivesse as mãos perfeitas para cortar o meu cabelo, porque qualquer vacilo aqui, é um buraco na certa, o maior estrago, não tem como disfarçar.

Quando encontrei Jean Marc, há uns quinze anos, fiquei e continuo fiel. Jean Marc é de Mônaco, da terra de Rainier e Grace, tem pedigree, não é um Jean Quelque Chose. Está no Rio há uns trinta anos, mas ainda conserva um leve sotaque francês. Nada exagerado.

- Como vai, Marrria Crrristina?

Talvez tenha menos erres, não sei. Sei que somente ele sabe cortar os meus cabelos, sem que eu corra qualquer tipo de risco. Tem uma equipe educada e simpática, compatível com o seu perfil e tem outra grande e rara qualidade: é pontual. Eu não tenho mais paciência e nem tempo para ficar horas em um salão, esperando para ser atendida.

Certa vez demorei-me mais do que o de costume no Jean Marc, porque me deu vontade de fazer luzes, para tentar mudar um pouco o visual, e enquanto eu esperava, com aqueles papéis prateados no cabelo, lia uma revista, quando tive a minha atenção desviada para uma conversa entre um maquiador e uma cliente que acabava de chegar. Eles estavam do outro lado do salão. Uma divisória com espelhos nos separava, de modo que eu não os via e nem eles a mim. Mas eu ouvia tudo e passei a me interessar pelo diálogo. Na realidade não era bem um diálogo, era mais um monólogo, porque o maquiador não dava chance para a cliente falar. Acho que ela se limitava a sorrir ou a acenar com a cabeça. Pelo menos era essa a impressão que me passava.

 

- Querida! Há quanto tempo! Nossa, você está um luxo! Emagreceu tanto! Magérrima e elegantérrima! Eu é que não consigo perder nem um quilinho! Sei que estou precisando, mas é impossível, minha amiga. Adoro chocolate! Mas você vai se maquiar hoje comigo? Que ótimo! Vamos arrasar! É uma festa? Que roupa você vai usar?

- É um casamento. Vou com um vestido bege – respondeu a cliente.

- Maravilha! Bege minha querida, é sempre bege. É chic! E você é chic. Aliás, nós somos chics!

- Uma maquiagem suave, por favor – conseguiu interferir a cliente. Pela voz percebi que era uma senhora.

- Claro! E você acha que eu vou fazer você parecer uma perua! Me poupe! Parece até que você não me conhece. Você vai ser a mulher mais admirada de todo o casamento. Talvez até mais do que a noiva. Meu Deus, que ela não nos ouça!

 

Enquanto a maquiagem começava, ele continuava a falar.

- Sabe quem esteve aqui outro dia? Aquela nossa amiga, sabe? Tão caidinha, coitadinha! Fiquei com tanta pena. O marido morreu e deixou a viúva sem nada. Está vivendo com a ajuda do filho e filho você sabe como é, a maioria não está nem aí. Quem te viu, quem te vê! Umas roupinhas bregas. A raiz do cabelo branca, as unhas todas por fazer. Um horror, minha filha! Sabe a que ponto ela chegou? Usava o batom nas bochechas e nas pálpebras, no lugar do blush e da sombra! Fiquei chocado! Acabei dando uma maquiagem de presente para ela.

 

Quando eu ouvi essa observação sobre o batom usado como blush e sombra, levei um susto. Será que aquele maquiador tagarela estava falando comigo ou para mim? Sim, porque eu tenho o hábito de fazer exatamente isso. É prático, quebra o maior galho e é rápido. Em qualquer lugar, com apenas um batonzinho básico, você retoca a maquiagem praticamente toda. Maquiador antipático! Não sabe de nada! Aliás minhas amigas, aprendi esse truque num programa de televisão, com a Fafá de Belém. E sou muito mais ela do que ele.

 

Rio, 23.03.2009

Maria Cristina Villares

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Escrito por Maria Cristina Villares às 22h37
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